(Imagem gerada por IA) Um soldado iraniano, com um míssil na mão, persegue um soldado americano aterrorizado em meio à destruição. Manifestantes, em frente à Casa Branca, pedem o fim da guerra; e no interior do gabinete, um presidente assustado faz uma ligação. Ambos os casos são animações com bonecos de Lego. Em outro vídeo, o assassinato do antigo líder supremo, o bombardeio em uma escola iraniana e a ascensão do novo líder, que promete retaliação. Em outra imagem, o presidente americano, vestido como Jesus, aparece curando um homem enfermo. Na sequência, na mesma cena, Jesus surge e nocauteia o americano. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A estratégia de comunicação por imagens e vídeos virais, criados com Inteligência Artificial, é uma nova arma de guerra que nivela as relações de força através do discurso. O conceito de Slopaganda – uma mistura de propaganda com montagem e linguagem peculiar de internet – amplia a disputa no campo simbólico. As imagens isoladas parecem irrelevantes. No entanto, se observadas em associação, assumem vida própria, desvelando uma interessante capacidade de ideação e convergência de sentidos. Assim, formam um imaginário aprofundado sobre a construção do conflito, transpassando os filtros da mídia tradicional. Esta parece ser a primeira vez que imagens produzidas por IA assumem protagonismo em uma guerra. A utilização de IA no conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel estrutura uma nova interface geopolítica, estabelecida por aparatos que não dependem de registros da realidade. O processo desencadeia uma remixagem visual a partir de perspectivas e intenções políticas. Essa dinâmica é sintomática de um contexto em que a imagem passa por um processo de saturação — a pós-fotografia. Com o avanço da IA, qualquer imagem começa a ser questionada, até mesmo as fotografias que não utilizam essa ferramenta. Há um esvaziamento de historicidade, pois a imagem não determina mais uma presença, mas, sim, um olhar mimetizado sobre os fatos. Vivemos uma crise de representação, como se a objetividade fosse descolada da fotografia. Há que se considerar que todas as imagens, mesmo as feitas por um fotógrafo com uma câmera, carregam intrinsecamente um elemento teatralizante. Mas, ainda que a subjetividade influencie a técnica e a composição, sempre há um resquício de realidade. As imagens e vídeos produzidos por IA ultrapassam a materialidade ao acessar a dimensão imaginária dos fatos, como reinterpretações e projeções do real. Essa fratura entre realidade e ficção neutraliza a historicidade imagética. Cabe especular se, no futuro, essas produções serão consideradas registros históricos do nosso tempo. Talvez sejam como ilustrações, ou mesmo como pinturas rupestres, que reconfiguram o imaginário pré-histórico. Há um esvaziamento que permeia as produções feitas por IA e aproxima esses estímulos das representações pré-fotográficas. Mas há uma diferença: essas imagens estão contaminadas pelas referências construídas ao longo da trajetória da fotografia. Essa problemática nos provocará a encontrar novas formas de pensar a História e a própria realidade. Boa semana!