No asfalto úmido, uma poça d’água refletia a cidade invertida. As gotas de chuva cadenciavam uma ondulação circular sobre a imagem projetada. A textura urbana flutuava. Subitamente, passos apressados irromperam a dimensão espelhada, atravessando a superfície líquida e desfazendo a nitidez dos prédios duplicados. Apesar da oscilação, a água se acomodava novamente em questão de instantes, reorganizando o espelho que registrava a realidade reversa. Era uma sexta-feira, fim de expediente. Um homem cansado caminhava impaciente de um lado para o outro, em frente a um edifício comercial. Ele estava angustiado à espera de um carro de aplicativo. Queria chegar logo em casa e esquecer aquela semana extremamente estressante. Em cerca de dez minutos, o motorista chegou. O homem embarcou no banco de trás, carregando uma mochila pesada. O motorista o cumprimentou e solicitou o código da viagem. Atencioso, perguntou se o ar-condicionado estava agradável e pediu educadamente que o sujeito colocasse o cinto de segurança. Esgotado, ele tirou os óculos e levou as mãos ao rosto, esfregando os olhos. O motorista perguntou se poderia ligar o rádio. Então, conectou um cabo no celular e selecionou um podcast qualquer. O passageiro encostou a cabeça no banco e passou a encarar a cidade desfocada pela janela. O cansaço e a miopia lhe permitiam observar os faróis e semáforos da cidade criarem linhas coloridas; traços de luz abstratos na escuridão da noite chuvosa. Alheio a qualquer interferência, abaixou o vidro para sentir e ouvir o vento lhe tocando o rosto, enquanto assistia os flashes impermanentes da iluminação urbana. Mas foram poucos minutos de paz. De repente, o carro começou a reduzir. As luzes, que antes passavam depressa, diminuíam de velocidade. O vento que soprava contra ele também cessou. O trânsito se precipitava. O carro foi se encaixando em uma fileira infinita de veículos parados em uma avenida. Mais à frente, um acidente. O som do vento fora substituído pelo ruído incessante das buzinas e, em uma fração de segundo, pelo som ensurdecedor das sirenes da polícia e das ambulâncias. A cidade voltava a impor todas as camadas de estímulos que o mantinham alerta – era impossível descansar. O motorista sugeriu que o homem fechasse o vidro, pois, com o carro parado, não era seguro mantê-lo aberto. Ao fechar a janela, o homem finalmente prestou atenção ao que era reproduzido no rádio. Uma mistura sonora dissonante: buzinas, sirenes, motoristas se xingando e, no podcast, figuras políticas recém-eleitas relativizando estatísticas da violência e pregando uma série de atrocidades. O motorista parecia concordar. “Tem que ter coragem para falar isso. No fundo, eles têm razão, não acha?”, perguntou. Tudo tem limite. Uma dor de cabeça o acometia. Atordoado, pediu para encerrar a corrida e desceu do carro. Enquanto caminhava, observava os reflexos da cidade nas poças d’água. A imagem invertida parecia mais normal que a realidade. Boa semana! *Fotojornalista e doutor em Comunicação