(Eduardo Nicolau/Estadão Conteúdo-12/11/11) Uma das canções menos conhecidas de Eric Clapton, Spiral, do álbum I still do (2016), diz muito sobre o artista. São versos reflexivos: “I just keep playing my song. Hoping that I get along”. Para mim, é algo terapêutico escutar sua guitarra levemente saturada todas as manhãs, no caminho de rotina. O tempo e a rua passam, e eu vou junto com a canção. Razão pela qual minha esposa me lembra de que todo final de ano, na conta compartilhada do Spotify, ele aparece como o artista mais ouvido da temporada. Por isso, no último domingo de setembro, fomos acompanhar o motivo desta preferência. Era perto das 17h e o estádio ainda estava esvaziado. Algumas pessoas compravam hambúrguer e cerveja com os ambulantes; crianças comiam pipoca. O sol ainda estava iluminando o campo do Allianz Parque. Estou em uma cadeira na estrutura lateral. Do outro lado, na mesma direção, avisto com o zoom do celular um velho amigo da escola. Trocamos mensagens e acenamos. Enquanto isso, um casal e um menino se aproximam. O homem me pergunta se a vista estava boa. Respondo que, aparentemente, sim; era uma vista livre para o palco e os telões. Ele agradeceu e se sentou uma fileira atrás. A hora passava e logo começou o show do guitarrista Gary Clark Jr. Com um belo timbre de guitarra, mostrou a textura híbrida do blues moderno em convergência com outros gêneros, como country e reggae. Ao final da apresentação, era noite. Por volta das 20h, Clapton entra no palco com Sunshine of your love; mais a frente, um outro destaque, Badge. Seu timbre é uma descarga elétrica, que arrebata o estádio. Sem fogos, luzes ou qualquer artifício pirotécnico, Clapton mostra um espetáculo que prova que sua guitarra consegue obliterar qualquer coisa. Afinal, são 60 anos de carreira que se materializam em um show em que a música, e sua ferramenta mais bonita, a guitarra, são protagonistas. Nota por nota, sem pressa; tal qual seu apelido: Slow Hand. As linhas de guitarra - e os bends - são escorregadios e expressivos; suspendendo a arena com a flexibilidade das cordas. Outro momento; um ritual de puro blues, na canção Kind Hearted Woman. Sozinho com o violão em mãos, hipnotizou a plateia. Tal qual a enigmática gravação de Robert Johnson, em 1937, uma estranha energia parecia envolver o som, como se houvesse alguma presença fantasmática o acompanhando. Um dueto entre Clapton e o vazio. O menino na fileira de trás lia uma matéria sobre o setlist do show anterior e pesquisava as letras no celular enquanto os pais contextualizavam para ele. Fizeram isso o show inteiro. Lembrei quando, ainda jovem, comprei o álbum acústico. Escutei à exaustão e foi a porta de entrada para um universo que nunca mais sairia. Dali, saltei para Derek and the Dominos; fiquei completamente imerso na conturbada novela que envolvia Clapton, Pattie Boyd e o melhor amigo George Harrison. O disco ilustra a história deste período. Depois, Cream, John Mayall, Blind Faith, Yardbirds; com destaque para a participação em While My Guitar Gently Weeps, dos Beatles. Os sucessos dos anos 80, com a influência do excesso de drogas e álcool; até a tragédia pessoal com a morte do filho, em 1991, que desencadeou uma de suas canções mais emblemáticas: Tears in Heaven. Aliás, esta música, naquele domingo, foi de arrepiar. Clapton é a personificação do blues. Desde a complexa trama familiar na juventude, a relação com a avó no papel de mãe, e a mãe no papel de irmã; até os conflitos pessoais e desilusões nos anos seguintes. Nesta toada, há uma mesma tristeza bonita em todas as suas canções e solos de guitarra. Seu timbre transitou de uma fúria experimental até chegar a uma maturação perfeita em doze compassos. Dentre todos os gênios que a guitarra elétrica criou, como Jimi Hendrix, Eddie Van Halen, David Gilmour, Jimmy Page, Jeff Beck, Richie Blackmore, Duane Allman e tantos outros, de certo, Eric Clapton carrega a sinceridade mais potente. Nos anos 60, uma pichação em Londres dizia: “Clapton is God”. Ao ver o bluesman no palco, dá para entender o que os fãs da época devem ter pensado. O show terminava e a plateia pedia bis. O pai do menino se levantou apressado e organizou a família para ir embora. O garoto ia ler o título da última música, mas a mãe lhe arrancou o telefone - como se não quisesse explicar mais detalhes das letras. Logo a seguir, com uma guitarra pintada com as cores da bandeira palestina, Clapton voltou com o riff da saideira: Cocaine. Enquanto a guitarra chorar, ele sempre será o maior da história. Boa semana!