(Imagem gerada por IA) As ruas estavam vazias; algo um tanto incomum para uma segunda-feira em plena hora do almoço. Alguns ambulantes ainda esperavam a possibilidade de vender camisas da seleção brasileira, bonés, buzinas ou bandeiras para os torcedores atrasados. Pouquíssimos carros circulavam. A cidade estava parada. A maioria das pessoas foi para suas casas, bares ou restaurantes, assistir ao jogo do Brasil. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em um bar de esquina, torcedores disputavam lugares próximos ao telão. Uma mulher pedia ao garçom uma mesa para oito pessoas. Um casal, que esperava há cerca de meia hora, reclamava da demora. O gerente pedia paciência, pois precisava atender as reservas primeiro. Uma turma que havia saído do trabalho começava os festejos com buzinas, tambores e vuvuzelas. Uma bagunça. Na rua deserta, surgia uma figura solitária. Um senhor com uma camisa antiga da seleção de 1982. A equipe do bar parecia conhecê-lo. O garçom apontou para a mesa de quatro lugares que estava reservada para ele. “A família vem hoje?” perguntou. O homem sorriu. O juiz apitou o início da partida. Conforme o primeiro tempo corria, o sujeito ofereceu dividir a mesa com um grupo que estava de pé. A torcida estava animada. Enquanto tomava uma água com gás e uma rodela de limão, o senhor apoiava na mesa sua carteira abarrotada de papéis e fotos antigas amassadas. Ele contava aos novos companheiros de mesa que assistira ao tricampeonato de 1970 na televisão que deu de presente aos pais, depois de um longo período economizando. Antes disso, havia acompanhado três Copas pelo rádio da família, uma lembrança que guardava com saudade. Cada Copa era uma memória especial, um marco na vida. Na década de oitenta, recém-casado e com um filho pequeno, não perdia nenhum jogo. Nos últimos mundiais, sempre reservava uma mesa no bar; gostava muito da energia vibrante dos jogos da seleção brasileira. De repente, o clima pesava: gol do Japão. No intervalo, um garotinho com corneta verde e amarela, que estava com os pais na mesa do lado, parecia chateado. O senhor falou: “Fique tranquilo, saímos dessa muitas vezes”. Ele tinha razão, logo viria o empate, e o garoto pôde soprar a corneta com toda a força. A torcida enlouquecia, a seleção voltava a pressionar a linha defensiva japonesa. O homem sorria confiante como se recordasse todas as vezes que conquistamos o mundo. A partida seguia empatada para o final, e o homem se levantou para acertar a conta com o gerente. Ao passar pelo garotinho, falou: “Nós vamos virar”. Piscou e foi embora sem olhar para trás. Caminhava distante pela calçada quando o bar explodiu em comemoração. O Brasil venceu. O garçom limpava a mesa quando se deparou com uma fotografia antiga que o homem esquecera. No fragmento amarelado, um jovem casal com um menino. O garçom a guardou com cuidado na gaveta do balcão. Boa semana!