Era tarde da noite. Um homem escrevia uma carta. A luz de uma luminária revelava a textura branca e pálida do papel. Os dedos batiam de forma compassada na mesa de madeira na tentativa de estabelecer um ritmo para que o raciocínio se organizasse. Afinal, em pouco tempo, tudo poderia mudar. O ato de escrever lhe dava a sensação de uma permanência provisória, como se as palavras pudessem desaparecer a qualquer instante. O vento entrava pela janela e ameaçava varrer tudo. A garganta resseca. Um gole de água. No papel, imaginava um futuro incerto. Calculava as horas, os minutos, as probabilidades. Acompanhava os números, as oscilações, procurava nas pesquisas algum sinal capaz de antecipar um desfecho – uma reviravolta inédita, talvez. Imaginava futuros – mesmo que fossem improváveis – e temia que um passado desbotado na memória pudesse tomar forma. As palavras viajariam no tempo, mesmo que o caos se precipitasse. Ao observar a folha vazia, imaginava uma linha de acontecimentos sob uma perspectiva externa, como se pudesse se descolar do tempo para entendê-lo como um todo. Lembrava dos últimos anos, das últimas décadas, do último século. As transformações que, no calor da hora, pareciam acontecimentos isolados revelavam, à distância, suas interligações. O que se veste de novo hoje carrega vestígios do passado inóspito que, embora pareça superado, encontra maneiras de retornar. Na trajetória histórica, cada passo à frente encontrava uma força contrária, como se a dinâmica do caminho impedisse o avanço total. Uma resistência ressentida se organizava diante das transformações. Os imaginários de outros séculos se articulavam, pressionando os novos tempos, forçando o retrocesso. Pensara que não seria possível haver tantos tempos em um só. Cegos de tanto ver, atravessamos o presente como o anjo da História de Walter Benjamin, inspirado na obra Angelus Novus, de Paul Klee: arrastados pela tempestade do instável progresso enquanto continuamos a olhar para trás, incapazes de elaborar inteiramente aquilo que vemos. O caminho é incerto. As próximas horas, dias, semanas, anos – ou esta noite. Pela janela, mirava a rua. Poucos carros passavam. Era tarde e a impossibilidade de prever o futuro lhe torturava. Algoritmos, big techs e redes digitais organizavam a percepção da realidade, enquanto relativizações embaralhavam fatos e interpretações. Ainda esperava por uma surpresa, uma virada impulsionada pela consciência coletiva. Talvez houvesse tempo. Escrevia para alcançar um tempo inexistente, um incógnito vazio. Amanhã, hoje será ontem. A ansiedade o paralisava, a esperança o mantinha, mas o risco não cessava. Pensava no que desejava que acontecesse, mas imaginar não era suficiente – era preciso estar atento e forte. Quando o amanhã se tornasse hoje, desejaria que não fosse invadido por um museu de grandes novidades. A hora passava depressa. Cansado, amassou o papel e o jogou fora. Na noite escura, as estrelas ainda brilhavam. Saiu à rua para respirar e ver o céu. Boa semana! *Fotojornalista e doutor em Comunicação