Ian Guedes (Arquivo pessoal/Rede social) Quando se pensa em música, é preciso sonhar o futuro. E o olhar atento de uma garotinha, no teatro lotado do Sesc Santos, ilustra essa percepção. No palco, um outro coração jovem, de pouco mais de setenta anos, embalava diferentes gerações. O sorriso da menina se abria como sol de primavera, a cada canção de Beto Guedes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A performance contida, evidentemente mineira, contrasta com a lógica contemporânea de espetáculo, propondo outra forma de consumir música – algo mais pessoal e intimista. A guitarra Stratocaster colorida, plugada no amplificador Fender, remete à textura sonora de outros gigantes, como Eric Clapton e George Harrison, e nos lembra que estamos diante de um dos mais criativos guitarristas brasileiros; em qualquer canção, é possível que sua guitarra passeie livre e sem roteiro, criando nuances em função da harmonia, até pousar suavemente sobre a letra cantada. A voz é inconfundível e, como nas gravações dos álbuns, navega aveludada entre a complexidade poética das letras e as harmonias sofisticadas, pautadas por acordes de sétima maior – característica de sua estética. O repertório nos conduz a uma jornada musical. As canções parecem conversar, fazendo décadas diferentes coexistirem na mesma noite. Canção do Novo Mundo, Maria Solidária, Canção da América, Gabriel, Espelhos D’Água, Luz e Mistério, A Paz, Amor de Índio, Sol de Primavera, Feira Moderna, Lumiar, Lágrimas de Amor, Sal da Terra, Paisagem na Janela e Quando Te Vi – uma das melhores versões em português de uma música imortalizada pelos Beatles. Elementos de pop, jazz e rock progressivo em fusão com ritmos regionais. A banda, liderada pelo exímio guitarrista Ian Guedes, filho de Beto, é muito competente. A dinâmica é orgânica, como uma boa banda de rock deve ser. Instrumentista experiente, Beto acerta a equalização do amplificador e alterna os timbres da guitarra explorando os pedais, enquanto a banda pausa nos intervalos entre as canções. Em tom de conversa, explica ao público que o virtual sound – sistema de arranjos de apoio – não estava funcionando naquela noite. E nem era preciso. A sonoridade de baixo, bateria, teclado e guitarras era suficiente para a travessia. Ao final do show, uma multidão se aglomerava em frente ao palco. Sua música não tem fronteiras geracionais. Em meio ao público animado, a garotinha correu até a beira do palco para assistir ao bis, com os olhos vidrados, ao lado do pai. O repertório foi uma celebração de suas grandes parcerias: Milton Nascimento, Lô Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Flávio Venturini e tantos outros. Enquanto se discute o futuro da música brasileira, aquela menina descobria ali, ao ouvir as canções de Beto Guedes, a beleza de uma música universal. Talvez seja assim que as boas canções sobrevivam: elas precisam ser apresentadas às novas gerações. Para compreender sua obra, é necessário perceber que a música é um inevitável encontro de almas. Boa semana!