(Pixabay) Era o fim de uma tarde quente e abafada. O trânsito estava pesado no horário de pico. Acima dos fios elétricos, nuvens cinzentas se fixavam quase na ponta dos edifícios. Depois do calor extenuante de um dia inteiro, uma pancada de chuva fecharia o dia torturante. Na saída de um mercado, um homem arremessa um pedaço de pão no meio da rua. Um bando de pombas se atiça para pegar as migalhas. No enquadramento preto e branco da calçada, pés apressados cruzavam por entre os pássaros famintos. Do outro lado da rua, uma moça caminhava sozinha carregando uma pesada sacola de compras. Ela desceu de um carro de aplicativo, e seguia a pé com dificuldade pela avenida movimentada. Mais à frente, próximo a um carrinho de pipoca e churros, uma multidão se amontoava. Crianças corriam pela calçada, após a saída da escola. Um garoto brincava com a irmã menor, que parecia irritada. Ele segurava o pacote de pipoca enquanto provocava a menina. Quando ela esticava os braços para pegar, ele tirava o pacote da sua direção, impedindo que a pequena comesse. O pai estava distraído, conversando com o pipoqueiro e segurando as mochilas, enquanto as crianças brincavam; o menino puxou o pacote mais uma vez, para que a irmã não conseguisse pegar. Mas foi a última vez. A menina, enfurecida, correu atrás do irmão, e deu uma tapa com toda a força no seu braço. Com a pancada, o menino deixou o pacote inteiro cair no chão. Em segundos, uma revoada de pombas tomou conta da calçada. Elas atacavam o pacote, despedaçando violentamente o papel branco, em busca de alimento, e fazendo com que o milho se espalhasse para todos os lados. As crianças ficaram com medo dos pássaros. O pai ainda tentou provar que eram inofensivos. Ele bateu palma para tentar espantá-las; ameaçou correr para cima delas, mas nada das pombas saírem do lugar. Elas continuavam ali, comendo sem parar. Enquanto isso, a moça com o pacote de compras se aproximava. Ela aparentava ter medo dos pássaros que, tal qual cães raivosos, pareciam farejar o seu pavor. Ao que parece, o destino dela era passar pelas aves. O céu escurecia e começava a trovejar. Pingos grossos de chuva caíam espaçados pela calçada. Enquanto ela se aproximava, um trovão irrompeu o céu, e a chuva caiu com violência. As aves começaram a dissipar; mas, atrapalhadas, voaram na direção da mulher. O bando batia as asas por infinitos milésimos de segundo em torno de sua cabeça, enquanto esperneava e gritava apavorada. Uma cena perturbadora que lembrava a atriz Tippi Hedren, no filme Os Pássaros (1963). Por uma questão de sobrevivência, a mulher arremessou a sacola no chão molhado e saiu correndo. Abrigados no toldo do carrinho, o pai ofereceu outro pacote para as crianças. Mas, atordoadas, recusaram. Pipoca nunca mais. Nuances hitchcockianas. Boa semana!