(Imagem gerada por IA) Uma moça carregava uma mochila de carrinho, enquanto levava o filho para o colégio. Aparentemente atrasada, ela tentava acelerar o passo, mas o menino resistia à pressa da mãe, forçando ao máximo para que o percurso fosse o mais lento possível – como se preferisse o atraso. O semáforo fecha para os pedestres. Ofegante, a mulher aproveita para recuperar o fôlego. Eram dois esforços simultâneos: correr e puxar o garoto com a mochila. O menino, distraído, fixa o olhar em uma televisão gigantesca exposta na vitrine de uma loja. Um telejornal mostrava as notícias do dia. Na chamada: ‘EUA e Israel atacam o Irã, que dispara mísseis em retaliação’. Apesar da iminência de uma guerra mundial, o menino só pensava em tomar sorvete naquela tarde e, se possível, faltar à escola. Para ganhar tempo, ele chama a atenção da mãe para o noticiário. Ela confere o relógio de pulso e resolve verificar o pedido. Os dois param em frente à vitrine para assistir à televisão. A princípio, a moça fica chocada, no entanto, a História parece se repetir. Todas as guerras anteriores, intervenções, tragédias humanitárias, a bomba atômica, instabilidade geopolítica e crise ambiental. Rastros da humanidade no planeta. Enquanto observam as notícias pelo vidro, silhuetas de pessoas caminhando pela rua irrompem na superfície translúcida. Os reflexos sombrios sobre o espelho impõem uma reflexão. O progresso é uma travessia por ruínas e escombros. A História não é uma trajetória de períodos de paz interrompidos por guerras, mas, ironicamente, o contrário. A violência não é exceção ou anomalia, mas um elemento inerente à humanidade. A arte poderia nos salvar – mas parece que nunca ouviram com atenção a música All You Need Is Love, dos Beatles. A percepção acelerada do tempo ignora a realidade. A última hora, a última década ou mesmo o último século são apenas milésimos de segundo diante da história do planeta. Projetamos uma perspectiva de futuro, embora saibamos que esta idealização pode explodir a qualquer momento. O que sobra nesse contexto? Parece que apenas o presente. Resta ser no tempo – o Dasein, de Heidegger (Martin, filósofo alemão, 1889-1976) ou o Jetztzeit, de Walter Benjamin (filósofo alemão, 1892-1940). Cabe aceitar a potência irreversível do agora. Benjamin já apontava que as fantasmagorias do consumo alienariam a realidade concreta. Para Mark Fisher, até mesmo a imaginação de outros futuros foi corrompida pela lógica do capital. A guerra é um eterno retorno ao processo mais primitivo – e mais trágico – da espécie humana. Enquanto refletia, a moça parecia congelada diante da escalada global da violência retratada na televisão. O semáforo abria e fechava. A hora passou e, de acordo com o regimento da escola, o menino só poderia entrar na segunda aula. Diante do contexto apocalítico, ela pergunta: “Ainda temos meia hora, vai querer sorvete de morango ou chocolate?”. Antes que o mundo acabasse, o menino sorriu. Boa semana!