[[legacy_image_257890]] Há um rolo de negativos fotográficos largado no balcão de revelação química. As janelas estão abertas e as luzes acesas, de forma que, caso aquele filme não tenha sido revelado até aquele momento, jamais será: as luzes já teriam corroído sua vividez latente. Me aproximo e observo as chapas cuidadosamente. O negativo está seco e, provavelmente, não deve ser de nenhum dos alunos que estavam comigo durante a aula. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Com atenção, verifico os detalhes ao longo da trajetória de trinta e poucos fotogramas. Há um desequilíbrio evidente com relação à iluminação das imagens, que parecem feitas em um tabuleiro de xadrez: fotos brancas e estouradas em meio a algumas escuras e sombrias. Provavelmente, houve uma série de alterações equivocadas na hora de regular a fotometria. Quem fotografou talvez tivesse uma experiência digital anterior à prática analógica e, assim, pela urgência, teve que ficar alterando a sensibilidade no mesmo filme. Um processo não recomendado na dinâmica do laboratório. No meio da bagunça de exposições aleatórias, observo alguns detalhes. Há uma criança correndo em uma imagem, mas não sei definir a temporalidade do registro. A cena está esvanecida e superexposta, o que torna impossível saber a identidade, ou mesmo o que fazia a personagem retratada. Em outra, uma senhora posando em frente a uma casa muito velha. Ela está sentada em uma cadeira de madeira e olha para a câmera com expressão enigmática. O negativo está gasto e todo riscado, a idosa me encara como se soubesse que está sendo vista por algum estranho. Em outra cena, o registro de uma casa, com paredes e janelas descascadas pelo tempo. O negativo está em péssimo estado, o que torna complicado definir o lugar ou mesmo a época das imagens. Me pergunto se as personagens, a criança e a idosa, estariam conectadas de alguma forma. Seriam imagens de pessoas conhecidas de quem fotografou? Ou seriam desconhecidos retratados casualmente em instantâneos no cotidiano das ruas de algum lugar? Seriam pessoas de uma mesma família, que haviam ficado aprisionadas no negativo envelhecido durante anos em alguma câmera abandonada? A questão é que jamais saberei a verdade. Elas são fantasmáticas. São fragmentos, registros, instantes de momentos e pessoas que podem nem existir mais, mas coabitam uma mesma dimensão física. Elas vivem apenas naquele rolo de negativo perdido. A tormenta das imagens-fluxo no contemporâneo nos faz pensar que toda a experiência de mundo se dá em imagens. Portanto, é preciso que haja representação imagética para qualquer acontecimento. Esse paralelo, que acomete nossa percepção fotográfica, provoca angústia no mundo líquido em que vivemos. Precisamos produzir, ver, interpretar, ignorar, mas, acima de tudo, nos acomodar a imagens que são infinitas. Se para tudo existir uma tradução visual, nos incomoda ter que imaginar uma narrativa que não tem resposta. A interpretação fotográfica é a medida da realidade. Observamos que o fluxo das imagens não conhece o vazio, pois tudo é contínuo e conectado. As imagens nunca estão isoladas. Este pensamento difere da fotografia na parede de uma galeria, por exemplo. Nas redes, as imagens se embaralham em contiguidades aleatórias assignificantes, todavia, permanecem em dinâmica de convergência. As cenas conversam entre si, amarradas por um nó invisível – e indivisível – que não nos permite o respiro para a análise crítica. As imagens tendem a nos sufocar: reflexo de uma demanda exacerbada por sentidos e atmosferas a que nos submetemos ininterruptamente. Cenas de guerras, entrevistas com personagens conhecidos, obras na cidade ou em qualquer lugar do mundo, incêndios, tragédias, viagens, política, esportes e tudo o que estiver acontecendo. A experiência fotográfica é também um instrumento etnográfico, que pode ser reformatado como método de investigação antropológica dentro de um determinado tempo e espaço. Se observarmos as imagens enquanto fluxo contínuo, seja em mídias impressas, ou mesmo aceleradas ao infinito nos meios digitais, podemos chegar a conclusões um tanto complexas. Nesta labiríntica análise, me parece que a fotografia, em seu processo de compartilhamento e distribuição tentacular, assume uma prerrogativa de velocidade intrínseca: o ritmo da imagem acelera o tempo. Pensemos a fotografia não como um registro único, definição que já não existe mais, mas, sim, como uma ideia de fluxo rizomático, uma dinâmica que contempla a sensação de antigenealogia. Um emaranhado de imagens que se multiplicam em progressão geométrica. Penso que, por isso, me atentei tanto ao negativo fotográfico esquecido. O filme é concreto, não abstrato. E não temos acesso a nada que amarre algum tipo de significado àquelas personagens. Dias depois, tentei descobrir de quem eram. Como estava sem identificação, foi colocado junto a um arquivo de velhos filmes abandonados, usados para testes nas aulas. Nunca saberemos quem eram aquelas pessoas. Boa semana!