(Imagem gerada por IA) No ponto de ônibus, um sujeito sorri observando o celular. Os óculos de grau se escondem sob o cabelo branco. Enquanto se distrai, imerso nas novidades das redes, amassa alguns papéis com a lista do mercado, um bilhete de loteria e uma xerox do documento de identidade. Ele enfia tudo no bolso da camisa, onde também guarda um maço de cigarros e uma caneta. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Após alguns minutos de espera, o homem embarca no ônibus. Ele se senta ao lado de uma jovem, que também está com a atenção voltada para o aparelho. Os dois parecem conectados a uma mesma tendência de consumo. O senhor repara no conteúdo do celular da mulher e pergunta, indiscreto: “Também está curiosa para saber como você seria nos anos oitenta?” A moça demora um pouco para perceber que ele falava com ela, e então responde: “Pois é...”. O sujeito explica que todos os amigos entraram na mesma onda - ou trend. “Agora todo mundo está postando isso. Tem até um texto pronto para jogar na IA junto com a foto”, contou o homem. E ela respondeu: “Sim, mas além do prompt, precisa ter uma foto com boa qualidade”. A moça havia acabado de publicar uma imagem. Jovem demais para ter vivenciado a época, parecia entusiasmada com o resultado. "A década de oitenta deve ter sido incrível", disse, exibindo a postagem. O senhor sorriu. “Eu também tenho a minha versão”, respondeu, mostrando no celular uma imagem generativa em que aparecia com cabelos volumosos, roupas coloridas e um filtro que lembrava a granulação de fotografia analógica. Ambos lembravam personagens saídos da série Stranger Things, da Netflix. A saturação das cores anestesiava uma temporalidade utópica. As angústias do presente pareciam se dissolver no passado ficcional perfeito, construído com uma direção de arte digna da estética hollywoodiana. Uma espécie de retrotopia. Como ilusão, as imagens pareciam retratar os dois. No entanto, aquelas figuras hiper-realistas circulando em fluxo contínuo junto a infinitas outras imagens de desconhecidos pelas redes não representavam concretamente nada. Trata-se de um sintoma contemporâneo do esvaziamento da própria ideia de presente e da possibilidade, cada vez mais incerta, de futuro. Um vazio atenuado pela nostalgia sintética - o tempo não vivido. As imagens alimentam uma ânsia irrefreável que não pode ser saciada pela realidade. Cria-se então uma dimensão paralela, um descolamento temporal, em que entregamos nosso rosto à inteligência artificial em troca da projeção de um pretérito espetacularizado. “É só uma brincadeira”, amenizou a moça. O desembarque do homem se aproximava. Ao mexer no bolso, para conferir a lista de compras, ele deixa cair a cópia do documento de identidade. Na foto 3x4, um homem magro, pálido, de bigode e semblante carrancudo. A moça brinca: “Então, o senhor era assim quando era jovem?”. Ele responde, enquanto desembarca do ônibus: “Acho que prefiro a minha nova versão”. Boa semana!