(Imagem gerada por IA) É tarde da noite. A rua, molhada pela chuva fina, espelha a cidade. Em uma varanda, no primeiro andar de um prédio antigo, uma abelha voa rondando uma colmeia instalada na condensadora de um aparelho de ar-condicionado. De uma janela envidraçada, um gato preto espreita os olhares curiosos. No interior do apartamento, uma luz amarelada projeta a silhueta de uma mulher na fachada lateral do edifício. Ela ferve água na chaleira. Pela janela, é possível ver a fumaça tomando forma, enquanto ela mistura ervas e um sachê de chá em uma xícara. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nas redondezas, as pessoas passam pelo prédio com receio. A senhora é vista como uma figura singular. O rosto pálido e enrugado está sempre coberto por lenços e xales. No elevador, não cumprimenta ninguém. As poucas vezes em que falava algo, os vizinhos associavam a maus presságios. Certa vez, avisou o zelador sobre um barulho incomum no elevador. No mesmo dia, uma família ficou presa uma tarde inteira. A assistência técnica não encontrou nada que explicasse a pane. Logo após reclamar da umidade na parede do banheiro, um cano estourou, inundando o apartamento de baixo. Nas reuniões, falava pouco, mas observava tudo – o que despertava incômodo nos moradores. A aparência enigmática, o comportamento errático e os hábitos noturnos caracterizavam aquela senhora como uma presença estranha no condomínio. Alguns diziam que era uma bruxa, ou que talvez escondesse algo. Até as crianças evitavam pegar elevador com ela. Tudo começou no dia em que, ao voltar do mercado, entrou no elevador com uma vizinha e o filho pequeno. Ao ver o garoto encarando a sacola de compras, teria oferecido algumas balas de framboesa. O menino aceitou, claro. Tempos depois, a mãe reclamava que havia gastado uma fortuna no dentista, pois o menino, que quase não comia doces, ficou aficionado por açúcar, a ponto de esconder bolachas e balas embaixo da cama. Embora sua única companhia fosse aquele gato preto, no passado, a mulher fora casada. O marido havia desaparecido na mesma época em que o felino surgiu. Os vizinhos imaginavam todo tipo de teoria para explicar a coincidência. E por esta mesma razão, evitavam contato com o gato. Sem filhos ou família, a solitária senhora vivia reclusa. Numa tarde cinzenta de segunda-feira, o interfone tocou. Uma equipe de bombeiros recebera reclamações dos vizinhos por conta das abelhas na varanda da idosa. A senhora liberou a entrada, e o zelador acompanhou o grupo. No apartamento, havia uma atmosfera densa e insalubre. As janelas pareciam estar trancadas há muito tempo. Nas paredes, retratos contavam fragmentos da sua vida. Livros e centenas de recortes de jornais se acumulavam na escrivaninha. Matérias insólitas, crimes e tragédias. Enfim, conseguiram remover a colmeia. Seria possível abrir as janelas. Enquanto iam embora, o gato se arrepiou e um dos homens, assustado, quase caiu da escada. A senhora sorriu. Boa semana!