(Imagem ilustrativa/Gradapor IA) Quem acompanha esta coluna está acostumado a ler aqui sobre cabotagem. Hoje peço licença para tratar de outro tema, igualmente importante: gestão — e o que a inteligência artificial está fazendo com ela. Começo com uma confissão: eu não sei programar. Tive aulas de Basic e Pascal na faculdade, décadas atrás — e, como quase todos da minha geração, nunca passei disso. Fiz carreira do lado do negócio, lendo mercados, clientes e tendências, e montando na mão, em planilhas, os retratos que sempre quis ter prontos numa tela. Entre entender um problema e construir a ferramenta que o resolve, sempre existiu um muro. De um lado, quem sabe o negócio; do outro, quem sabe fazer a máquina obedecer. Toda ideia que eu tinha morria na travessia: fila de prioridades, orçamento, “fica para o ano que vem”. Este ano, esse muro virou porta. Não porque eu tenha virado programador, continuo não sendo. Mas porque sentei para conversar, a sério, com uma inteligência artificial. Descrevi o que queria. Discutimos. Corrigi, insisti, reclamei. E a ferramenta nasceu. Em várias semanas, não meses ou anos, construída inteiramente no meu tempo livre: almoços, noites, madrugadas. Em casa, ouvi centenas de reclamações pelo tempo que eu passava com meu novo amigo, o Claude. Todas justas. Mas eu não conseguia parar: pela primeira vez, a distância entre ter uma ideia e vê-la funcionando era do tamanho de uma conversa. As lições vieram rápido. A primeira: a máquina executa com perfeição inclusive o pedido errado — e com confiança impecável. Ela nunca pergunta "tem certeza?". Essa pergunta continua sendo trabalho do gestor. A inteligência artificial democratizou a execução; não democratizou o julgamento. O conhecimento do negócio, que sempre tratei como o lado óbvio da equação, virou de repente o ativo mais raro da mesa. A segunda: tive de voltar a ser aluno. Levei dias para entender o que um programador chama de repositório — o lugar onde o trabalho fica guardado e cada mudança é registrada, para que nenhum erro seja definitivo. Travei, apaguei o que não devia, refiz. Há um prazer esquecido em ser ruim em algo novo e melhorar um pouco por dia. Recomendo a qualquer executivo. A terceira virou método: não confiar numa fonte só. Quando uma resposta me cheirava mal, chamava outras inteligências artificiais para contestá-la — e ficava com o que sobrevivia ao debate. Conselheiros, humanos ou digitais, funcionam melhor quando sabem que serão checados. A quarta, a mais importante: não faça suposições. Quando falta um dado, a máquina não para nem avisa; ela chuta, e apresenta o chute com cara de fato. Aprendi a interrogar cada número bonito: de onde você tirou isso? Um "não sei" honesto vale mais do que um palpite bem-vestido — regra que serve para muito além dos computadores. O momento que ficou, porém, não foi técnico. Foi a cara da equipe ao ver a ferramenta pela primeira vez. Tarefas que levavam dias, prontas na tela. O silêncio de quem percebe que o trabalho mudou. Ali entendi que eu não tinha entregado um sistema: tinha devolvido tempo — horas antes gastas garimpando dados, liberadas para o que máquina nenhuma faz: pensar, decidir, olhar o cliente no olho. Se um gestor que não sabe programar consegue isso, a régua do possível mudou para todos nós. E quando se ganha uma alavanca dessas, a pergunta seguinte é inevitável: que peso maior dá para levantar? No meu caso, a resposta foi um rio inteiro secando. Mas isso fica para a próxima coluna.