[[legacy_image_270437]] Dessa vez, a repercussão de mais uma manifestação racista contra Vinicius Júnior foi rigorosamente mundial. E extrapolou os limites esportivos, dando a esperança que finalmente o problema será enfrentado com rigor, sem medidas paliativas ou simples mensagens de protesto ou repúdio. Um bom exemplo foi a ação do governo brasileiro no campo diplomático, com a convocação, pelo Ministério das Relações Exteriores, do embaixador da Espanha no Brasil para uma reunião. A consequência disso é uma reclamação formal, para ser posteriormente levada àquele país, exigindo explicações e providências. A solidariedade veio de todos os lados, indo desde a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) até a Fifa, entidade responsável pelo futebol mundial. Veio também de muitos clubes do mundo, do Real Madrid, é óbvio, ao Flamengo, onde Vinicius Júnior foi revelado. Até mesmo La Liga, instituição organizadora do campeonato espanhol. Num primeiro momento, surpreendendo o mundo, o presidente de LaLiga, Javier Tebas, até criticou por meio de um post o atacante brasileiro. Porém, diante da repercussão negativa, se desculpou publicamente e até demonstrou solidariedade. Era o mínimo que podia fazer diante da gravidade da situação. A própria entidade, na sequência, anulou a expulsão de Vinicius Júnior na confusão ao final da partida contra o Valencia, decisão que também deve ser interpretada como uma manifestação de apoio. A justificativa para tal medida é que a equipe do VAR exibiu uma imagem parcial da briga que se desencadeou após a manifestação racista, eliminando uma cena anterior, em que o brasileiro é imobilizado por um atleta rival. Depois disso, começou um grande trabalho para identificar os responsáveis pelas injúrias raciais, envolvendo também um episódio de janeiro, quando torcedores simularam o enforcamento de Vinicius Júnior, pendurando um boneco num viaduto de Madri. Paralelamente, também foram adotadas algumas medidas administrativas, como a interdição de um setor da arquibancada do estádio do Valencia e aplicação de uma multa. Sem dúvida, muito pouco para o que ocorreu e pelo fato da reincidência das manifestações racistas em várias regiões da Espanha. Só contra Vinicius Júnior foram diversas, a comprovar que o problema é recorrente e indica o perfil racista de muitos espanhóis. O treinador Pep Guardiola, que trabalhou muitos anos no Barcelona, se mostrou cético em relação à vontade dos dirigentes daquele país estarem efetivamente dispostos a enfrentar o problema, em entrevista na última quarta-feira. Seu temor é que as reações e promessas se resumam à reação mundial, sem qualquer preocupação de agir pensando no futuro, de modo a evitar que as cenas se repitam. Guardiola, um técnico diferenciado, indicou um caminho a seguir: a Premier League, responsável pela organização do futebol inglês. E alertou que o episódio envolvendo Vinicius Júnior pode ser uma grande oportunidade para o País “dar um passo à frente”. Em conjunto com as autoridades da Inglaterra, os dirigentes adotaram severas medidas contra o racismo, com ótimos resultados. As punições envolvem prisões imediatas, com processo e julgamento céleres, multas e outras ações contra os clubes, além do campo esportivo. Xavi, atual técnico do Barcelona, discordou de Guardiola, ponderando que a questão é principalmente “educacional”. Sem dúvida, está correto, mas educar um povo pode levar uma ou até duas gerações. O momento exige contra-ataque imediato, não dá mais para se omitir diante de um quadro tão grave. Não há dúvida que o problema é mundial, cultural e de tempos em tempos se observam manifestações racistas em vários lugares, entre eles o Brasil. Na semana passada, por exemplo, os jogadores Joaquim e Ângelo, do Santos, na partida contra o Audax Italiano, do Chile, foram alvos de injúrias raciais na Copa Sul-Americana e até agora a Conmebol, entidade responsável pelo futebol continental, não agiu, numa omissão comprometedora. Inegavelmente, não é apenas a cor de Vinicius Júnior que incomoda os torcedores mais radicais na Espanha. Irritam, com certeza, seu estilo técnico em campo, com dribles e jogadas até humilhantes, e sua postura alegre após os gols, com “dancinhas” e coreografias provocativas. Tais ações e reações são naturais, espontâneas e têm como objetivo apenas extravasar uma grande alegria. Com apenas 22 anos, Vinicius Júnior é ainda um jovem atleta, em início de carreira, feliz por jogar futebol, um esporte que, na essência, é também sinônimo de alegria.