[[legacy_image_244050]] Sempre se cobrou muito o posicionamento político de ídolos esportivos, por sua influência e capacidade de mobilizar a opinião pública. Poucos foram, por exemplo, os que se manifestaram abertamente na ditadura militar, apesar das barbáries cometidas ao longo de anos e anos. A rigor, a história mostra apenas a chamada Democracia Corintiana, liderada por Sócrates, Casagrande e Wladimir. Além do apoio de Zé Maria e Zenon e a oposição do goleiro Leão. O movimento, inicialmente, tinha como alvo principal romper com as amarras, costumes e decisões que mantinham os atletas quase que como escravos dos clubes. E deu certo, pois o grupo passou a participar diretamente da definição de horários de treinos, concentrações e viagens. A iniciativa, porém, teve um grande viés ideológico, a ponto de um dia o time estampar em sua camisa a frase Diretas Já, que unia o País na luta pelo direito constitucional do povo eleger o presidente da República. Sócrates era diferenciado - além de craque, era médico, o que, sem dúvida, lhe deu grande consciência política. Contudo, muitos do futebol, de outros esportes ou mesmo da música tinham também tal nível, mas preferiram o silêncio ou a omissão. A recente campanha política para presidente da República, que superou os limites da racionalidade, vide o terrorismo de 8 de janeiro em Brasília, até contribuiu para que algumas personalidades do esporte se manifestassem e se posicionassem. O grande ídolo Nelson Piquet, por exemplo, foi até motorista de Jair Bolsonaro num desfile na Capital Federal, dirigindo o famoso Rolls Royce da Presidência. José Aldo, nosso campeão do UFC, também o fez e hoje até hospeda o ex-presidente em sua casa, na Flórida. E mesmo Neymar, do alto de sua superficialidade. Muito bom, todos têm direito de optar e apoiar esse ou aquele candidato. Há, porém, limites para apoio ou crítica pública. Ainda que a liberdade de expressão seja garantia constitucional, é preciso bom senso, equilíbrio e respeito. Poucas semanas após o vandalismo registrado contra as sedes dos Três Poderes em Brasília, o craque Wallace, do nosso vôlei supercampeão, insere no Instagram uma enquete sobre “quem daria um tiro no presidente Lula”.De pronto, reprovável e condenável pelo simples conteúdo. Mas, ainda mais grave pelo momento em que vivemos, todos perplexos e até com medo de que as cenas de Brasília se repitam. Muito difícil, é claro, as reações imediatas do governo, da maior parte da população e da Justiça desestimulam qualquer tentativa de novo golpe. O jogador, para começar, foi muito infeliz e imprudente. Ainda que não tenha tido a intenção de incitar alguns radicais, o conteúdo de sua enquete foi extremamente grave. Basta ver a repercussão negativa nas próprias redes sociais e em outras áreas. Tanto é que rapidamente apagou a consulta e mais tarde gravou um vídeo pedindo desculpas. Válido, sem dúvida, o arrependimento quase imediato, mas ele não apaga o que fez. De pronto, seu clube, o Sada Cruzeiro, anunciou seu afastamento do grupo e o suspendeu por tempo indeterminado. Na sequência, o Conselho de Ética do Comitê Olímpico do Brasil (COB), de forma liminar, também o suspendeu de qualquer atividade oficial. Assim, fica impedido de participar de eventos e competições no âmbito olímpico, o que inclui a Superliga e a Copa Brasil. O atleta tem prazo para apresentar sua defesa e só após isso será iniciada a fase de obtenção de provas. Basicamente, é acusado de ter violado o Código de Conduta Ética da entidade e do movimento olímpico, conforme o Artigo 34, que dispõe que "é indevida a prática de atos de violência, bem como a doutrinação, a incitação ou a orientação para a sua realização, no ambiente administrativo, de treinamento e competição ou fora dele". Wallace terá que responder também fora da área esportiva, conforme solicitação da Advocacia-Geral da União (AGU). Na esfera esportiva, as punições vão desde advertência até o banimento do esporte, enquanto que na área judiciária há a possibilidade de ser condenado à prisão. É fundamental, sem qualquer intenção de pré-julgar, que o atleta seja punido. Não dá para relevar levando em consideração que não houve intenção, que ocorreu a imediata retirada do post ou o pedido de desculpas e arrependimento. Tem que ser responsabilizado. O fato foi muito grave e envolve a figura de um presidente da República legitimamente eleito. Está mais do que comprovado que a impunidade é um dos grandes problemas do Brasil. Em síntese, deve-se cortar o mal pela raiz.