[[legacy_image_273736]] É óbvio que o ideal seria Bia Haddad ter conquistado o título de Roland Garros, na França, um dos quatro torneios que integram o chamado Grand Slam. Porém, mesmo perdendo na quinta-feira (8) para a atual número 1 do mundo, Iga Swiatek, a tenista brasileira fez história, realizando uma campanha memorável. A exemplo de Guga, que se fez sozinho, contando basicamente com seu treinador, Larry Passos, Bia é mais um exemplo de um esforço solitário no Brasil, onde o esporte, infelizmente, não tem uma política de Estado, a exemplo do que ocorre em países desenvolvidos e até em alguns do chamado terceiro mundo. Bia Haddad, com 27 anos, trouxe de volta o tênis para o Brasil e para a mídia em geral. Ao longo das duas semanas em Paris, mesmo no saibro, que não é seu piso preferido, mostrou um tênis técnico e, acima de tudo, corajoso. Aliás, nesse esporte, a personalidade e coragem são fatores fundamentais, foi com Guga e agora está sendo com a tenista paulista. A coragem está diretamente ligada à força mental, outro atributo claramente exibido por Bia Haddad em praticamente todas as partidas. Salvou match point, virou jogo praticamente perdido e, na semifinal, enfrentou a número 1 de igual para igual. Faltou pouco: se tivesse conseguido ganhar o segundo set contra Iga, a história poderia ser outra. O esporte, porém, não comporta a partícula “se”, não tem condicional, vale o resultado. Com o resultado na França, no ranking a ser divulgado pela WTA na segunda-feira (12), a brasileira deverá aparecer em 10º lugar. Mas , independentemente da classificação, terá realizado mais uma façanha, antes marca apenas de Maria Esther Bueno, até hoje reverenciada como uma rainha do tênis mundial, principalmente em Wimbledon, considerado o templo sagrado do esporte. Esse seleto grupo exigirá ainda mais de Bia Haddad, desde a parte mental até o aspecto físico. A cada dia, o tênis impõe mais em quadra. Salvo exceções, os pontos são disputados à exaustão, cobrando o máximo de cada jogador. O emocional passa a ser também fundamental, isso ficou claro na sexta-feira (9), na “final antecipada” do torneio masculino entre o espanhol Carlos Alcaraz, até então número 1 do mundo, contra o fenômeno Novak Djokovic. Quem nos últimos dois anos acompanhou os grandes torneios pelo mundo com certeza constatou que Alcaraz, além de um tenista espetacular e legítimo sucessor de Rafael Nadal, sabe que fisicamente também é um privilegiado. A partida contra Djokovic, além da passagem para a final, representava a continuidade como número 1 do mundo. Mas a vitória não veio. E se vencer neste domingo (11) o norueguês Casper Huud, o sérvio recuperará o trono. Sua longevidade é absurda, pois a primeira aparição no Top 10 foi em março de 2007, por coincidência numa semifinal de Roland Garros, perdendo para Rafael Nadal, um de seus grandes adversários durante a maior parte da vitoriosa carreira. O confronto de sexta-feira foi também mais um na chamada “guerra de gerações”, um com 36 anos e outro com apenas 20. Não foi dessa vez que a era de Djokovic, Roger Federer e Rafael Nadal se viu definitivamente encerrada. O sérvio, por todos os seus atributos, ainda continuará por um bom tempo no circuito. Só não é um exemplo completo pelo negacionismo em relação à vacina contra a covid-19, o que prejudicou muito sua imagem e carreira. Na Austrália, o processo foi até humilhante, terminando com a deportação após mentiras e uma detenção. Na semifinal, ficou claro que o emocional foi decisivo, conforme revelou o próprio Alcaraz, na entrevista coletiva pós-jogo. O espanhol admitiu o nervosismo extremo, por tudo que envolvia o confronto, sendo a maior causa das câimbras que sentiu no início do terceiro set. Via de regra, tal problema ocorre por deficiência física. O problema acabou sendo fatal, facilitando o trabalho do sérvio. Louve-se a atitude e o comportamento de Carlos Alcaraz, que, por respeito ao público, não abandonou o jogo. Postura como essa caracteriza um grande campeão e não há dúvida de que em breve o tenista espanhol reinará quase absoluto, até o surgimento de um outro fenômeno. Guardadas as devidas proporções, além da diferença física entre homens e mulheres, Bia Haddad tem potencial para avançar. Ela só perdeu para a número 1 do mundo, Iga Swiatek, que no sábado (10), pela terceira vez, conquistou o título de Roland Garros, derrotando na final Karolina Muchova, por dois 2 a 1. A brasileira inicia agora a temporada de grama, a partir de Nottingham, onde foi campeã em 2022. Nesse mesmo piso, venceu o WTA 250 de Birmingham, confirmando sua adaptação a uma quadra rápida e extremamente surpreendente, tanto em simples como em duplas. Por tudo que passou, desde lesões até suspensão por doping, por ter ficado até como última do ranking mundial, ela provou que é diferenciada, que jamais desiste. Em síntese: um exemplo para quem sonha com o sucesso. Quem sabe não consiga reeditar a façanha de Maria Esther Bueno.