O técnico português Jorge Jesus aprontou novamente, dessa vez com o grande craque Cristiano Ronaldo. Sua carreira, infelizmente, registra momentos conturbados e até de pura falta de ética, desde os tempos em que trabalhou no Flamengo e, principalmente, após deixar o clube carioca e vagar pelo mundo. O treinador parece ter aversão a grandes estrelas, do nível que eventualmente podem colocá-lo em segundo plano. Sua última vítima foi o compatriota Cristiano Ronaldo, de 41 anos, craque incontestável e exemplo de profissionalismo. Os números de sua carreira são incríveis: por clubes, são 24 anos, de 2002 até hoje; pela seleção, 23 anos, de 2003 a 2026, num total de 1.343 jogos oficiais e 985 gols, sendo o maior artilheiro da história do futebol português. O número de títulos comprova sua genialidade: 32 por clubes e três pela seleção. O mais incrível: ganhou cinco vezes a Bola de Ouro (2008, 2013, 2014, 2016 e 2017). Em tese, pela idade, Cristiano Ronaldo já deveria ter encerrado a carreira. Porém, em simples olhar para seu físico e por sua permanente preocupação em manter a forma, é fácil constatar que ainda reuniria condições de continuar defendendo a seleção de Portugal, uma de suas maiores paixões. Na última semana, porém, o craque decidiu encerrar seu ciclo no time nacional, anunciando por meio de uma carta aberta ao mundo do futebol que “devolvia a camisa 7” à equipe. A decisão foi motivada por um atrito com Jorge Jesus, durante a última Data Fifa. Cristiano Ronaldo, após a Copa do Mundo, tinha indicado que pretendia se aposentar da seleção, mas ouviu do treinador, com quem trabalhou no Al-Nassr, da Arábia Saudita, um apelo para que seguisse em ação. Os dois até trocaram elogios publicamente durante uma fase de treinamentos para Liga das Nações, atualmente em disputa no continente europeu. Na partida contra a Noruega, CR7, como sempre foi mundialmente conhecido, começou na reserva, mas com a promessa de que jogaria pelo menos 30 minutos na fase final. Fez um longo aquecimento ao lado dos companheiros e acabou não entrando em campo. Em síntese, houve quebra de confiança e uma exposição que poderia ter sido evitada. Um jogador do porte de Cristiano Ronaldo merecia, no mínimo, mais respeito. O problema ainda se agravou quando Jorge Jesus, numa entrevista coletiva, mesmo após uma conversa reservada com o jogador e o presidente da Federação Portuguesa, destacou sua autoridade sobre a utilização dos atletas. Mais uma vez, quebrou o acordo firmado na reunião com o atleta, que envolvia também um pedido público de desculpas. Não o fez e, horas depois, viu Cristiano Ronaldo deixar a concentração com a seleção e embarcar em seu avião para Lisboa. Acabou suspenso por 30 dias e foi multado em 255 euros (cerca de R\$ 1,4 mil), uma ironia para quem tem um patrimônio estimado em US\$ 1,2 bilhão. Em seguida, em longo comunicado, CR7 anunciou sua aposentadoria da seleção portuguesa. O respeito ao jogador veio de toda parte, desde Felipão, que o treinou na seleção portuguesa, até craques como Neymar, Vinicius Júnior, a rainha Marta e o surfista campeão Ítalo Ferreira. O craque santista, que também foi vítima do autoritarismo do técnico português, se portou de forma objetiva em seu comentário: “Lenda”. Marta, seis vezes eleita a melhor do mundo pela Fifa, comentou com uma arte repleta de corações. E a estrela do Real Madrid, que hoje veste a camisa 7 que durante anos foi do craque português, o exaltou com a frase: “Para sempre, o número um”. O surfista arrematou: “Você foi o mais brabo de todos”. Cristiano Ronaldo ainda tem um sonho, apesar dos muitos feitos: chegar a mil gols na carreira. Atualmente, tem 985, faltando 15 para atingir uma marca obtida por Pelé, o alemão Gerd Muller, Arthur Friedenreich e Romário, dentre outros. Túlio Maravilha também garante que superou a casa do milésimo, porém, comenta-se que contabilizou até gol em treinamento. O português é mais um dos fenômenos que o mundo produz de tempos em tempos, como Pelé, Messi, Neymar e Maradona. De família pobre, nasceu no Funchal, capital da pequena Ilha da Madeira, e seu nome foi escolhido pelo fato da mãe ter sofrido ameaças de aborto e ele ter vindo ao mundo. Sua tia, católica fervorosa, para simbolizar um ser superior, sugeriu o nome de Cristiano, que significa cristão. Com certeza, esse Jorge, que por ironia tem o sobrenome Jesus e muitos o chamam de mister, ficará no tempo, ao contrário de Cristiano, que no futebol rigorosamente é um ser superior. *marciocalves@ymail.com