O polêmico treinador José Mourinho, considerado um dos melhores do mundo (GLYN KIRK / AFP) O polêmico treinador José Mourinho, considerado um dos melhores do mundo, disse recentemente que há muito deixou de comemorar os gols dos times que comanda. A justificativa é simples: o lance decisivo obrigatoriamente tem que passar por revisão do VAR, sistema eletrônico que avalia todos os detalhes da conclusão ou até do início da jogada. Mourinho tem razão. Já faz parte do espetáculo o árbitro, após um gol, levar a mão ao ouvido e iniciar uma longa conversa com a equipe do VAR. Quem fez o gol fica na grande expectativa, muitas vezes até se aproxima do juiz para ouvir a conversa e tentar conhecer mais rapidamente a decisão. Os demais, companheiros de time ou adversários, permanecem conversando e olhando para o telão, que agora exibe a aferição do lance. Quando a imagem indica que o gol foi válido, a torcida vibra novamente, assim como o autor do gol. Segue-se uma nova rodada de abraços e até coreografias previamente ensaiadas. Se ocorrer a anulação, surgem a decepção e a reclamação quase coletiva. Nesse caso, a vibração muda de lado, com os jogadores do time que sofreu o gol festejando abertamente. É inegável, no momento atual, considerar a tecnologia como um problema. No momento em que se debate até a Inteligência Artificial (IA), nenhum recurso técnico pode ser desprezado. Sem dúvida, numa análise isenta, a introdução da tecnologia no futebol foi um grande avanço. Os erros graves de gols ou de pênaltis puderam ser evitados, independentemente do grau. Só isso já foi uma grande evolução, garantindo um pouco mais de justiça ao jogo. A questão maior é o tempo que demanda uma revisão, principalmente no Brasil. Nessas ocasiões, o jogo fica paralisado por longos minutos; já houve casos de até seis, prejudicando a partida sob os mais variados aspectos. Segundo levantamento detalhado feito pelo repórter Roberto Maleson, do ge, da Globo, somente no primeiro turno do Campeonato Brasileiro da Série A ocorreram 320 interrupções de jogo para atuação dos árbitros de vídeo e 79 mudanças de decisão. E mais: o tempo médio de revisão aumentou 8% em relação ao Campeonato Brasileiro de 2023. Das 79 alterações de decisões, 54 ocorreram após a ida do árbitro à chamada cabine do VAR e 25 por meio do ponto eletrônico, equipamento que permite a comunicação direta entre o juiz de campo e o da sala de apuração. Ainda conforme o belo trabalho do repórter do ge, desde 2019 os jogos do Campeonato Brasileiro foram paralisados 4.089 vezes. Numa análise preliminar, os números podem indicar que o VAR, apesar de colaborar com a veracidade do jogo, é um grande problema. Sem dúvida, não é: pelo contrário, apesar das longas paralisações, também provoca emoções, que são a essência do futebol. A Inglaterra, onde hoje se pratica o melhor futebol do mundo, já iniciou uma reflexão sobre o tema, com alguns admitindo até a possibilidade de banir tal sistema dos campos ingleses. Não é esse caminho, o ideal é aprimorar o sistema e o nível das arbitragens. Em outros esportes, como vôlei e principalmente o tênis, a tecnologia tem sido fundamental, atuando rapidamente na confirmação de lances ou corrigindo equívocos. É claro que os esportes são bem diferentes, assim como os lances que implicam no uso do recurso eletrônico. A avaliação dos lances ocorre em segundos, o tênis é o maior exemplo. A dúvida nas quadras é se a bola saiu ou não, ou se o serviço (saque) foi dentro ou fora. Via de regra, a resposta leva segundos em qualquer superfície, tanto faz se o piso é de grama, de saibro ou rápido. Não dá, é óbvio, para comparar com o futebol, que envolve questões como lances de impedimento milimétricos, pênaltis decorrentes da utilização do braço em determinados movimentos e até jogo violento ou desleal, que pode determinar uma expulsão de campo. Impõe-se, contudo, uma grande melhoria, tanto no aspecto da tecnologia como do nível de arbitragem. Há algum tempo, no futebol de São Paulo, foi feita uma experiência com a utilização de dois árbitros de campo. Infelizmente, não foi levada avante. No Basquete, são três atuando normalmente, e no vôlei, dois, apesar da tecnologia. Gradativamente, no atual Campeonato Brasileiro, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vem realizando uma renovação de seu quadro de árbitros, numa iniciativa positiva. Entretanto, não basta: não dá, nos tempos atuais, para depender apenas da capacidade humana. No jogo de abertura do futebol na Olimpíada de Paris, na quinta-feira, entre Argentina e Marrocos, um caso inédito, envolvendo uma paralisação de mais de duas horas, a partir de uma invasão de campo por parte de torcedores revoltados com a marcação de um gol. O árbitro determinou 15 minutos de acréscimo. Nesse período, os argentinos fizeram segundo gol, garantindo o empate de 2 a 2. Houve um grande tumulto, os times foram para os vestiários e, na volta, após cerca de duas horas, o jogo foi retomado e o VAR anulou o gol da Argentina. Sem entrar no mérito, do VAR ou da atuação do árbitro, rigorosamente um absurdo.