Oscar Schmidt é considerado uma das lendas do esporte brasileiro (Marcelo Justo/ AT/ Arquivo) Não cabe comparar: como se diz popularmente, cada um na sua. Ayrton Senna na Fórmula 1, Pelé no futebol, Maria Esther Bueno e Gustavo Kuerten no tênis e Adhemar Ferreira da Silva e João do Pulo no atletismo. Ídolos e rigorosamente fenômenos. Nesse grupo, sem dúvida, entra tranquilamente Oscar Schmidt, maior jogador de basquete do Brasil e um dos melhores do mundo, que, infelizmente, faleceu na sexta-feira (17). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Sua morte impactou o Brasil, assim como as de Senna e Pelé. Exigiu até o tradicional plantão da Globo, só utilizado em momentos extremamente relevantes, e uma abertura emocionante do BBB 26, comandado por seu irmão Tadeu Schmidt. Cada ídolo com seu perfil, Oscar era diferente até como homem. Não tinha, por exemplo, vergonha de chorar publicamente, desafiando a máxima de que homem não demonstra esse sentimento abertamente. Oscar chorava na vitória e na derrota, era emoção pura. Inegavelmente, era único, com seu estilo verbal agressivo, sem medo das palavras em qualquer situação. Dentro da quadra era um ‘leão’ indomável, capaz de tudo para vencer, para evitar a derrota. Seus feitos são inúmeros, recordes são vários e suas entrevistas marcaram época. As respostas eram diretas e absolutamente sinceras, vinham da alma, do coração, daquilo em que acreditava. Por sua precisão nos arremessos de quadra, recebeu o apelido de Mão Santa. Um dia, de bate-pronto, rebateu: “Não existe mão santa, existe mão treinada”, numa clara referência ao seu esforço para aprimorar a técnica, que na verdade tinha muito de natural. Após os treinos, muitas vezes sozinho na quadra, fazia mais de 500 arremessos, de dois e três pontos, como Zico cobrando faltas seguidamente. Tal prática levou Oscar a ser também um homem decisivo, levando o basquete brasileiro a um nível mundial e a conquistar vitórias incríveis. A maior delas foi nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis, nos Estados Unidos, quando levou a seleção brasileira, comandada por Ary Vidal, a uma vitória contra os Estados Unidos, considerados soberanos da modalidade, por 120 a 115. Oscar fez ‘apenas’ 46 pontos. Depois da partida, exibindo a medalha de ouro, o ala-pivô se deitou na quadra e chorou como uma criança, num momento incrível, que frequentemente é exibido como um dos destaques do esporte no Brasil. Em outros momentos, em mais uma demonstração de sua personalidade e convicções, recusou dois convites para jogar na NBA, a poderosa liga do basquete mundial, onde se concentram os melhores jogadores da modalidade. Foram duas oportunidades, a primeira em 1984, após os Jogos Olímpicos de Los Angeles, quando foi selecionado pelo New Jersey Nets, atualmente BrooKlyn Nets, ainda que sem garantia de contrato. A segunda ocorreu a partir de um movimento da imprensa dos Estados Unidos, com a proposta de que Oscar pudesse defender o então recém-criado Miami Heat. Na época, havia uma regra da Federação Internacional de Basquete (Fiba) que impedia os atletas que atuassem na NBA de defenderem seus países. Era, com certeza, uma chance de consolidação de sua fantástica carreira e uma oportunidade milionária, pelo nível salarial da modalidade nos Estados Unidos.Comprovando sua personalidade, valores e princípios, Oscar simplesmente recusou. O mais importante foi sua justificativa: “Foi uma decisão que nunca mudaria, foi a decisão mais fácil que tomei na minha vida. Jogar pela seleção brasileira é a coisa mais nobre que existe, é diferente. É representar um país inteiro, e isso é muito melhor do que jogar na NBA”. Ainda acrescentou, ao seu estilo sem freios, que “na NBA você volta rico, mas na seleção você será famoso e as pessoas tiram o chapéu para você... Eu terminava a temporada na Itália e vinha para a seleção para jogar de graça”. Assim mesmo, a convite, confirmando o reconhecimento do basquete dos Estados Unidos, em 2017 participou de um jogo na NBA, numa homenagem do Brooklyn Nets, e atuou numa partida de celebridades no All-Star Games, em Nova Orleans. Seus títulos e números são muitos, no Brasil e no exterior, a cada temporada registrando uma façanha. Pelo Flamengo se tornou, na ocasião, o maior cestinha da história do basquete, ao atingir a marca de 49.737 pontos, superando o mito Kareem Abdul-Jabar, com 46.725. Essa marca só foi quebrada em 2024, pelo incrível Lebron James, que ainda joga pelo Los Angeles Lakers. E mais: é um dos três brasileiros no Hall da Fama do Basquete dos EUA. Seu maior desafio, sem dúvida, ocorreu em 2011, quando num exame de rotina foi diagnosticado com câncer no cérebro. Em 2022, contudo, numa entrevista emocionante, anunciou ter vencido a batalha contra a doença. “Ter curado o câncer foi para mim um negócio de outro planeta”. Por fim, lembrou um encontro com o Papa Francisco no Rio de Janeiro, quando “ele botou a mão na minha cabeça e falou: considere-se abençoado”. As reações à morte de Oscar foram incontáveis, uma delas foi da rainha Hortência, que também construiu uma linda história no basquete. “A gente tem aquela imagem de que o ídolo é eterno”. Infelizmente, não é. Só mesmo na história.