Definitivamente, o futebol não é mais um esporte popular. A ultima Copa do Mundo é o exemplo mais recente, a partir dos preços dos ingressos, até mesmo na fase de grupos, principalmente nos Estados Unidos, uma das sedes da competição ao lado de Canadá e México. A consulta por um simples bilhete tinha como resposta um monte de dólares, até nas áreas mais altas dos belos estádios americanos. Rigorosamente, virou um show business, cada vez mais acessível somente para a elite financeira. A tentativa de Gianni Infantino, presidente da Fifa, em vender uma parte do futebol mundial para uma empresa privada foi a maior prova de que o interesse financeiro há muito se sobrepõe ao esporte. Felizmente, houve uma reação forte da Europa e Ásia e a iniciativa foi descartada – mesmo assim, ela pode custar a reeleição do dirigente. É verdade que o tempo do amadorismo, da prática romântica, há muito se foi. Hoje impera o profissionalismo puro e até predatório. Essa última janela de transferência de atletas, que vai até 11 de setembro, é mais uma prova do momento que vive o futebol mundial. A Europa é a elite desse esporte, concentrando a maioria dos grandes clubes do mundo e, por consequência, os melhores jogadores. Neste final de semana, alguns dos principais campeonatos europeus têm início, com grandes atrações dentro de campo. Só o Campeonato Espanhol, segundo levantamento do jornalista Rafael Reis, do UOL, movimentou 561 milhões de euros (cerca de R\$ 3,5 bilhões) em transações. A maior contratação coube ao Real Madrid, que pagou 125 milhões de euros (R\$ 750 milhões) pelo marfinense Diomande, de 19 anos. O mesmo Real, além do famoso e caro técnico José Mourinho, contratou o lateral-esquerdo Cucurella, da seleção espanhola, por 55 milhões de euros (R\$ 330 milhões), o atacante Espí e o lateral-direito Dumfries, desembolsando mais 45 milhões de euros (R\$ 270 milhões). Espí, destaque do Levante na última temporada, vai disputar posição no ataque com o ex-palmeirense Endrick. Ainda na Espanha, o Atlético de Madrid, considerado o terceiro time do país, gastou só nessa janela mais de 40 milhões de euros (quase R\$ 250 milhões) em dois atletas. O Barcelona, por sua vez, desembolsou 70 milhões de euros (R\$ 420 milhões) apenas com Anthony Gordon, de 25 anos, que jogava no Newcastle e é titular da seleção inglesa. Nos próximos dias, o clube catalão pode anunciar Rodri, do Manchester City, que já foi Bola de Ouro. Por esse negócio, mais 70 milhões de euros. Os grandes da Itália também não economizaram, com destaque para Milan, Napoli, Juventus e Roma. Na França, a política foi a mesma. Ontem, o poderoso PSG anunciou a chegada de Ferran Torres, por R\$ 315 milhões. Ele foi autor do gol que garantiu o bicampeonato mundial da Espanha. O jogador vivia seu último ano de contrato com o Barcelona e poderia sair a custo zero para qualquer time em 2027. Tais números mostram que o futebol brasileiro vive uma realidade bem diferente da Europa. Até a menor das transações feitas na Espanha, Itália, Inglaterra e França seria impensável para um clube do futebol brasileiro ou sul-americano. Só Flamengo e Palmeiras têm condições de realizar uma grande contratação, assim mesmo a longo prazo. Os demais, inegavelmente, vivem uma situação muito difícil em termos financeiros e sem perspectiva de reversão. O maior problema é o modelo de gestão, muito mais associativo do que empresarial, como ocorre em vários grandes clubes do mundo. A maior transação até hoje do futebol brasileiro foi feita pelo Flamengo, no repatriamento de Lucas Paquetá, pagando 42 milhões de euros. Depois vêm o Cruzeiro, na compra de Gerson ao Zenit e o Palmeiras, com o jovem Vitor Roque, que atuava pelo Betis. Ainda na faixa de custos elevados, o time de Leila Pereira também adquiriu o atacante colombiano Jhon Arias, por 25 milhões de euros (faixa de R\$ 150 milhões). Por tudo isso, Palmeiras e Flamengo dominam hoje o cenário brasileiro, mas ainda distantes do primeiro mundo do futebol, liderado por Espanha, Inglaterra e França. marciocalves@ymail.com