(Freepik) “O futebol mudou, agora o futebol é negócio”. Alguns atribuem essa frase a Pelé, mas, independentemente da autoria, ela traduz a realidade desse esporte, uma tendência crescente nos últimos anos, infelizmente abandonando sua origem popular. Os sinais são muitos e a última Copa do Mundo, “dividida” em três países, é um grande exemplo. Os preços dos ingressos no Mundial merecidamente vencido pela Espanha foram o exemplo mais recente, desde a primeira fase. Na grande maioria, se falava em US\$ 1 mil, US\$ 1,5 mil e muito mais por bilhete, em setores mais simples e distantes dos gramados, valores proibitivos para qualquer cidadão comum. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo consta, a Fifa projetou um faturamento recorde, superior a US\$ 13 bilhões (cerca de R\$ 66 bilhões), envolvendo direitos de transmissão, bilheteria, patrocínios e marketing. Pensando justamente na arrecadação, a entidade máxima do futebol mundial aumentou para 48 o número de participantes e já sonha em ampliar esse número para 64 na próxima edição, obviamente pensando na expressão “to make money” (fazer dinheiro), que surgiu muito antes da colonização das Américas, sendo usada desde o século 16 na Europa. Por tudo isso, o futebol mundial vê seus custos se tornarem uma ameaça para grandes clubes, numa escalada ameaçadora. Muitos times estão rigorosamente sobrevivendo e sem um mínimo de perspectiva para se manterem apenas como associações esportivas. Por sua representatividade, a Fifa deveria há muito tempo intervir para conter esse processo. Infelizmente, porém, só pensa em ampliar receitas e transformar o futebol no maior negócio da Terra. Na prática, seu regime é presidencialista, controlando o chamado “board”, com muito poder e dinheiro, embevecendo, embriagando e desorientando seus dirigentes. Vários passaram e se perderam, acabando afastados e até mesmo processados. Coube ao João Havelange quebrar o reinado do inglês Stanley Rous, que comandou a entidade de 1961 a 1974. O brasileiro também foi derrubado, assim como seu sucessor Joseph Blatter, no chamado Fifagate, numa alusão ao famoso Watergate, escândalo político que levou, em 1974, à renúncia do então presidente dos Estados Unidos Richard Nixon. Em 112 anos, a Fifa teve apenas oito presidentes, caracterizando o continuísmo. Gianni Infantino está há mais de dez anos no cargo e não parece disposto a deixá-lo, apesar dos muitos erros e omissões durante a última Copa do Mundo. Faltou-lhe coragem, além de independência, em vários episódios, como os que envolveram os árbitros somali Omar Abdulkadir Artan, impedido de entrar nos Estados Unidos, e do brasileiro Raphael Claus, que expulsou o atacante americano Folarin Balogun no jogo entre EUA e Bósnia e Herzegovina. O cartão vermelho foi posteriormente anulado por pura interferência política, numa ação absurda em meio a um Mundial. A última de Infantino ocorreu na semana passada, surpreendendo o mundo do futebol e confirmando o viés puramente comercial. Ele simplesmente propôs, sem nenhuma consulta ou debate com seus afiliados, a criação de uma subsidiária avaliada em US\$ 20 bilhões (cerca de R\$ 102,3 bilhões). A empresa, que recebeu o nome de Fifa Forward Enterprise, teria até 20% de sua participação acionária vendida a terceiros, por um valor estimado em US\$ 4,2 bilhões (aproximadamente R\$ 21,4 bilhões). A reação negativa à iniciativa foi quase mundial, a partir da Uefa, que reúne todas as federações da Europa, e da Concacaf, que abrange as Américas do Norte e Central. A Ásia também se insurgiu e, a rigor, apenas a Conmebol, que reúne nosso Cone Sul, se omitiu. A mais contundente foi a unidade europeia, que imediatamente condenou e ontem divulgou um comunicado ainda mais incisivo. Falou em “esquema secreto” com prazos acelerados e disse que perdeu a confiança em Infantino. Eis um trecho do comunicado: “Não podemos continuar assim com planos elaborados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o jogo. Devemos identificar os responsáveis e responsabilizá-los”. E mais: “O acordo foi obscuro, de bastidores e sem transparência, que ele arquitetou e tentou impor, esteve muito longe de ser transparente”. A entidade também afirmou que o dirigente deixou de cumprir promessas feitas ainda na primeira eleição e que a perda de confiança não é só da Uefa, mas de outros setores do futebol. Na sexta-feira, diante das pressões e das reações negativas, até mesmo de seu assessor sênior, Carlos Cordeiro, que deixou o cargo em sinal de protesto, além de temer ações para sua renúncia, Infantino desistiu oficialmente de sua proposta. A reação da Uefa foi imediata: “Essa é uma vitória para todo o futebol. Mas, não deve ser o fim da história. A proposta foi retirada. A tarefa de reconstruir a confiança da Fifa está apenas começando”. Assim, pelo menos por enquanto, o lema da Fifa está firme: “For the game. For the world” (Pelo jogo e pelo mundo). Mas, nem tanto.