Nessa última semana, do alto de seu currículo como ex-árbitro de futebol e ex-comentarista da TV Globo, Arnaldo Cezar Coelho concedeu uma longa entrevista para o Abre Aspas do Globo Esporte. Merece uma atenta leitura para todos os envolvidos com o futebol, sem exceção, jogadores, técnicos, dirigentes de clubes e da CBF, árbitros e jogadores. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Depois que deixou os gramados e se tornou comentarista de arbitragem, ficou ainda mais famoso, criando até o famoso bordão “A regra é clara”. Uma síntese do que deve prevalecer em campo em quaisquer circunstâncias. Ao seu estilo, na entrevista, disparou para todos os lados, quase ninguém foi poupado. Nem a tecnologia e sua evolução constante. Segundo ele, daqui a pouco “um robô vai apitar”. Não evitou uma de suas grandes tiradas: “Pode escrever, a IA (Inteligência Artificial) vai fazer com que um robô apite o jogo. Ele está cheio de gente no ouvido, faz isso, faz aquilo, a bola entrou, não entrou. Não precisa mais de bandeirinha, ele fica ali, a bola sai pela lateral ele faz para cá; se não souber para que lado, ele olha para o juiz...todo gol é examinado, para que serve o bandeirinha? Bota lá um sorveteiro...” Na opinião de Arnaldo Cezar Coelho, que começou como árbitro de futebol de praia e foi o primeiro juiz não europeu a apitar uma final de Copa do Mundo, em 1982, na Espanha, o VAR, criado para a Copa de 2018, começou a interferir muito no desenvolvimento do jogo. E acrescentou que o árbitro passou a transferir para o sistema a responsabilidade de definir um lance mais polêmico. Ele também criticou muito a postura e a falta de personalidade da maioria dos árbitros no Brasil. Segundo ele, apitar é convicção, se houve falta, por exemplo, ao invés de ir ao local, apenas indica e se posiciona para a sequência da partida. Só assim conseguirá se impor e evitar a formação de “bolinhos” de jogadores que só sabem reclamar. Condenou até a conversa com os capitães: “O juiz tem que tirar o cara ou coroa com eles e acabou”. Sem dúvida, nesse ponto exagerou, em alguns momentos é importante o diálogo com os representantes dos times em campo. Ponderou, com razão, que todo mundo erra, ninguém está isento, mas nada de ir além de sua função. Seu grande ídolo foi Armando Marques, que não admitia conversas ou contestações. Para Arnaldo, o grande pecado dos comandantes de arbitragem é “dar conversa” para dirigentes de clubes, presidentes de federações e muitos outros. E partiu contra os técnicos também: “No meu tempo, treinador ficava no fosso, se levantasse era expulso. Hoje tem área técnica, virou palco, ele reclama do juiz, vai no árbitro reserva... tem jogador suplente que também vai tomar satisfação do quarto árbitro. Tem que expulsar na hora, a impunidade estimula a violência”. Ele revelou uma história envolvendo o craque Zico, quando foi jogar no futebol japonês. Depois de uma derrota, Zico deu uma entrevista e disse que perdeu a partida pelo fato de o juiz não ter marcado um pênalti. De imediato, a federação o multou em 10 mil dólares. Zico pagou e nunca mais abriu a boca. Para Arnaldo Cezar Coelho, o momento da arbitragem brasileira e mundial é muito ruim, e fez um paralelo com um estudante de medicina, que, após a faculdade, tem que fazer estágio, residência e só depois, com muita experiência, começa a clinicar e fazer cirurgias. “O árbitro de futebol se forma e depois lava as mãos”. E revelou, como exemplo, que um jovem de apenas 20 anos já vai se tornar árbitro da Fifa. Por fim, como uma lição para os árbitros em geral, lembrou o início de carreira como comentarista de arbitragem na televisão. Até sugeriu a ideia para a primeira participação, indicando a apresentação de um lance polêmico e em seguida sua explicação sobre o erro cometido. A jogada escolhida está na história, o famoso gol de Maradona com a mão em 1986, depois rotulado pelo genial jogador como “a mão de Deus”. Segundo ele, o juiz, do Egito, ficou parado no meio campo balançando a cabeça, indeciso. “Juiz quando para na intermediária não vai ver nada”. Inegavelmente, o futebol e as regras mudaram muito, assim como o ritmo dos jogos. Porém, a fala de um árbitro do porte de Arnaldo Cezar Coelho tem que ser, no mínimo, objeto de reflexão.