No início da última semana, praticamente todo o mundo acompanhou a despedida de Lionel Messi da seleção argentina, no Estádio Monumental de Nuñez, do River Plate. Uma festa à altura de um dos últimos gênios do futebol mundial. Não faltou emoção, aliás um sentimento natural do torcedor argentino, sempre fanático pelo clube de coração ou pelo time nacional. Ainda não foi a despedida de Messi do futebol, pois ele continuará na MLS por um ou dois anos, defendendo o Inter Miami, dos Estados Unidos, um país onde o futebol não é a paixão nacional. Sem dúvida, fará muita falta, mais ainda quando encerrar definitivamente a carreira, como Pelé, Maradona e Cruyff, outros três gênios da história do futebol. Pelo mundo, atualmente, ainda há muitos craques espetaculares, como Lamine Yamal, Neymar, Mbappé, Dembélé e Cristiano Ronaldo, entre muitos outros, porém, nenhum no nível dos quatros que citei acima. Talvez apenas o atacante português se aproxime deles, pelos números de sua carreira e o grande profissionalismo. Nesse aspecto, é único e um bom exemplo de quem quer ter sucesso na carreira. O craque santista também foi muitas vezes genial. Impossível negar que a seleção argentina vai perder muito de seu nível técnico, ainda que coletivamente conte com jogadores de destaque e um técnico extremamente competente, Lionel Scaloni. Basta lembrar a Copa do Mundo de 2022, quando Messi rigorosamente fez a diferença e a sua equipe terminou como campeã mundial, título que lhe faltava e que até lhe cobravam com insistência para comprovar sua genialidade. Como se isso fosse necessário, afinal, muitos foram seus grandes momentos no futebol, principalmente no Barcelona, da Espanha. A despedida de Messi, infelizmente, reacendeu o debate sobre quem efetivamente foi o melhor jogador de todos os tempos. Os fanáticos argentinos insistem em dizer que foi ele. Inegavelmente, não foi, pois melhor do que ele foi Maradona - a diferença é que esse se envolveu em muitas polêmicas, dentro e fora do campo. Contudo, até hoje é idolatrado, tanto um grupo de fãs até criou uma igreja com seu nome, chamada Igreja Maradoniana. Nas quatro linhas, como se diz popularmente, Maradona “só não fez chover”. Protagonizou jogadas magistrais, como os gols contra Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986. No primeiro, quando driblou meio time e marcou. No segundo lance, que ficou conhecido, como ele mesmo apelidou, como La Mano de Dios (A Mão de Deus). Levou o mundo a pensar que teria feito o gol com a cabeça. Irregularidade à parte, sua resposta foi genial. Esse jogo teve forte carga simbólica e política devido à Guerra das Malvinas, travada pelos dois países quatro anos antes. Maradona, ao contrário de Messi, também tinha grande consciência politica e jamais se furtou a se posicionar publicamente. Não hesitou em enfrentar a Fifa por várias vezes e jamais escondeu sua admiração por Fidel Castro e o regime cubano. Infelizmente, morreu tragicamente, envolvido em drogas e outros problemas. Nada, contudo, apagou seus feitos na Argentina, na Itália e nas Copas do Mundo, independentemente do resultado final. Queiram ou não os argentinos, só não foi melhor que Pelé, Atleta do Século e da história do futebol. Apesar da polêmica, o Rei é único e pelo mundo a grande maioria concorda. Pelé foi completo e, como está na história do Santos Futebol Clube, parou até uma guerra. Em vida, sempre recebeu com classe as provocações sobre os que indicavam Maradona ou Messi como melhores. Uma vez, com o sorriso tradicional, disse que inicialmente os argentinos precisavam definir quem era realmente o número um do país. Controvérsias à parte, a festa para Messi no amistoso contra Benim foi justa, maravilhosa e emocionante. Fez até gol, de pênalti, com a categoria habitual. Foram mais de 85 mil pessoas no estádio, transmissão para centenas de países e choro de muitos, desde os familiares ao público, além de jogadores e o treinador. No currículo, pela seleção argentina, em 21 anos de convocações, foram 208 jogos, 126 gols, 69 assistências e títulos como a Copa do Mundo de 2022, a Copa América em 2021 e 2024 e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008. A repercussão foi mundial: o Clarín, tradicional jornal argentino, estampou “46 milhões de agradecimentos”. La Nación escreveu: “Adeus, capitão, agora é lenda”. O As, da Espanha, o segundo país do craque, foi direto: “Adeus, gênio”. No dia seguinte, com a tradicional humildade, Messi publicou uma carta de despedida, destacando que adotou a decisão correta de encerrar a carreira na seleção. Após demostrar gratidão aos companheiros, familiares e torcedores, fez questão de citar Maradona. “Não quero me esquecer de Diego, que colocou nosso país onde merecia estar... nos ajudou lá do céu em cada passo que demos”. Em síntese, como ocorreu após as mortes de Pelé e Maradona, o futebol mundial está mais pobre. Igual aos três, só um novo milagre divino. *marciocalves@ymail.com