Em qualquer circunstância, aquele que se sente prejudicado ou observa eventual desrespeito a quaisquer de seus direitos pode protestar, reclamar, recorrer, pleitear e até procurar a Justiça. É uma questão de cidadania e consciência: diante de qualquer indício de prejuízo, simplesmente se conformar não é o ideal ou correto. Feito esse registro, inicialmente há que se reconhecer o direito de o Flamengo recorrer à Conmebol para tentar mudar o resultado do jogo contra o Estudiantes, pela semifinal da Libertadores, na última quinta-feira, num Maracanã com mais de 70 mil pessoas. Em campo, o jogo terminou 0 a 0, mesmo placar do confronto de ida, na Argentina. Assim, a decisão foi para os pênaltis. Na disputa, o clube carioca perdeu três cobranças, com Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique, todas defendidas pelo goleiro uruguaio Muslera, de 40 anos, o mesmo que falhou na Copa do Mundo e acabou execrado pelos torcedores de seu país. Agora, ele virou herói, não importa o passado. Mérito de Muslera ou incompetência dos três? Com certeza, as duas coisas. O uruguaio foi esperto e conseguiu, com sua movimentação sobre a linha, confundir os adversários. E os jogadores do Flamengo não fizeram cobranças indefensáveis, como ocorreu uma noite antes com os atletas do Palmeiras, na semifinal contra o Fluminense, em São Paulo, vencida pelo clube paulista por 5 a 3 nas penalidades, com o goleiro Carlos Miguel defendendo o chute do meia Nonato e garantindo a classificação para a final da Libertadores, que tudo indicava que seria novamente frente ao Flamengo. Mas o clube carioca, inconformado, quer ganhar a vaga no tapetão, com um recurso à Conmebol. A alegação é de que o Estudiantes escalou irregularmente o defensor Marcos Rojo, que foi contratado ao Racing numa transação conturbada no meio argentino. O clube até tentou utilizá-lo no primeiro jogo, mas a Conmebol negou o pedido. Posteriormente, o time de La Plata obteve uma liminar, ainda que alertado que a utilização seria de sua exclusiva responsabilidade. Assim mesmo, a equipe argentina o utilizou no Maracanã, na medida em que, em tese, tinha o necessário respaldo. No pedido à Conmebol, o Flamengo se baseia também num precedente envolvendo o Santos, que em 2018 escalou o volante uruguaio Carlos Sánchez. Ele, quando jogava pelo River Plate, havia sido punido com três jogos de suspensão por agredir um gandula. Sánchez deveria cumprir a pena no torneio seguinte, independentemente do clube que estivesse defendendo. Na época, era o time santista, que disputava o confronto com o Independiente pela Libertadores daquele ano. Depois do jogo de ida, que terminou 0 a 0, o Independiente recorreu e a Conmebol julgou o pedido procedente, transformando o empate em uma derrota por 3 a 0. No jogo de volta, outro empate sem gols e o Santos acabou eliminado. Os casos são distintos, contudo, o Flamengo tem esperança de transformar a derrota no Rio em uma classificação para a final. Segundo especialistas, os cariocas dificilmente terão êxito, ainda que na Conmebol quase tudo seja possível. A realidade é que a derrota foi além do campo, suscitando dúvidas sobre a qualidade da gestão e suas decisões na temporada. Uma delas foi a súbita demissão do técnico Filipe Luís, hoje vivendo grande momento no Monaco. Uma parte do fracasso tem que ser creditada também ao treinador português Leonardo Jardim, que errou na escalação e nas alterações no duelo de quinta-feira. De pronto, seu trabalho também foi contestado. Vale lembrar que, ainda em 2026, o Flamengo foi eliminado da Copa do Brasil pelo Vitória, ao perder por 2 a 0 no Barradão. Assim, para salvar a temporada, só resta o Brasileirão, cuja liderança é alvo de uma disputa ponto a ponto com o Palmeiras. Na última semana, além do Flamengo, Vasco e Fluminense também decepcionaram nas competições continentais. O time vascaíno, em pleno Maracanã, foi eliminado na semifinal da Copa Sul-americana ao perder para o Boca Juniors por 3 a 1, perante mais de 60 mil torcedores. E o Fluminense, nos pênaltis, na mesma fase, pela Libertadores, caiu frente ao Palmeiras. Em síntese, recursos e desculpas à parte, o futebol carioca viveu uma semana de fracassos. *marciocalves@ymail.com