[[legacy_image_359430]] O que é fair play? Esta é uma expressão inglesa que significa modo leal de agir. Num contexto mais amplo, pode ser entendido como espírito esportivo. Ou jogo limpo, jogo justo. Numa rápida pesquisa na internet, é fácil encontrar muitos lances onde prevaleceu o fair play, partindo dos próprios jogadores ou até mesmo de um treinador como Marcelo Bielsa, curiosamente conhecido como El Loco. Anos atrás, Bielsa dirigia o Leeds United e mandou seu time deixar o adversário fazer um gol pelo fato de um de seus jogadores ter marcado com um de seus rivais caído em campo, pedindo atendimento médico. O atacante ignorou e concluiu a jogada. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Mesmo no Brasil se registraram grandes momentos, um deles envolvendo Rodrigo Caio, na época zagueiro do São Paulo. Num lance contra a sua equipe, envolvendo o atacante Jô e o goleiro Renan Ribeiro, o juiz deu cartão amarelo para o atacante, que estava pendurado e não jogaria a segunda partida das semifinais do Campeonato Paulista. Sem hesitar, Rodrigo Caio avisou o juiz que ele havia atingido o colega de equipe, e não Jô. Imediatamente, o árbitro anulou o cartão amarelo e o atacante rival pode jogar o segundo confronto entre as duas equipes. E até fez um dos gols que eliminaram o São Paulo. Rodrigo Caio foi muito cumprimentado em campo e elogiado pela opinião pública. O técnico Tite, então na seleção brasileira, até o convocou para um dos jogos do Brasil como prêmio por sua atitude. Na contramão, Rogério Ceni, que comandava o São Paulo, condenou a postura de seu zagueiro. Nenhuma surpresa em tal reação, pois o ex-goleiro sempre foi arrogante, petulante e cheio de si. Jamais teve a humildade como uma característica de sua personalidade. Em um outro lance pelo mundo de puro fair play, o atacante Samuel Eto’o, jogando pela Sampdoria, simplesmente se ajoelhou e deu um nó no cadarço da chuteira do goleiro adversário, que obviamente, por usar luvas, não conseguia solucionar o problema. Na sexta-feira, na partida do Santos contra o América-MG, houve um lance típico para nova demonstração de fair play. Infelizmente, de uma forma bem direta, não houve nada disso por pura falta de sensibilidade do atacante Renato Marques, que se aproveitou de uma lesão do goleiro João Paulo para marcar um gol. O lance é bem claro: ao sentir a contusão, o goleiro santista levantou a mão, demonstrando claramente o problema. E mais: tinha praticamente o domínio da bola, só não chutou por absoluta incapacidade física. A jogada ainda mostra nitidamente a surpresa do próprio atacante, percebendo o contexto do lance. Infelizmente, porém, ele optou por chutar para o gol vazio, perdendo uma grande oportunidade para entrar para a história do futebol e do fair play. Na saída para o intervalo da partida, veio a entrevista de Juninho, capitão e ídolo do América que, literalmente, pediu desculpas pela postura do colega. Juninho foi mais longe, optando até por usar o plural: “Erramos”. E fez até um paralelo com a tragédia que envolve o Rio Grande do Sul, com dezenas de vítimas fatais e milhares de desabrigados, além de grande destruição e danos absurdos. Ele citou diretamente o termo fair play e ponderou: “Eu cobrei recentemente que nós, seres humanos, nos tornássemos pessoas melhores. E talvez na primeira oportunidade que tivemos de demonstrar isso a gente falhou. Não estou aqui falando que o Renato falhou, nós falhamos. Foi isso. Peço desculpas para ele (João Paulo), para a equipe do Santos, ao Brasil, para todo mundo”. Sem dúvida, do alto de sua humildade e sinceridade, Juninho deu um exemplo de fair play. E mais: não individualizou o ato, optou por responsabilizar o coletivo, numa mensagem direta para a sociedade em geral. O América-MG teve todo o intervalo para refletir sobre o episódio e até optar por uma reparação digna, dando a oportunidade de o Santos marcar livremente ou até fazendo um gol contra. Certa vez, o jogador de um time norueguês, ao devolver a bola ao adversário que tinha praticado o fair play, encobriu o goleiro e fez um gol. Imediatamente após o reinício da partida, o time permitiu que o adversário fizesse um gol. Um grande momento, que poderia ter ocorrido em Belo Horizonte. De qualquer forma, a partida de sexta-feira à noite protagonizou dois momentos importantes, puramente opostos. Cabe refletir sobre a atitude de Renato Marques e a fala de Juninho. Infelizmente, no Brasil, o fair play é exceção.