Em entrevista ao jornal francês L’Équipe, próximo à última Data Fifa, o técnico da seleção brasileira, Carlo Ancelotti, disse que Neymar “está no caminho certo” para voltar à seleção brasileira que disputará a Copa do Mundo de 2026. E mais: acrescentou de pronto que o craque do Santos “está sendo avaliado” por ele e pela CBF. Ainda que óbvios, afinal, só um lunático poderia ignorar o craque brasileiro, tal fala é uma mensagem importante sob todos os aspectos. Para o jogador, significa um estímulo para que continue trabalhando para recuperar sua plena forma física, fundamental para disputar um campeonato mundial. Para o torcedor, independentemente do time de coração, é uma esperança de acréscimo de qualidade à equipe nacional, que até agora não transmitiu a segurança de que a seleção tem realmente chances de conquistar o hexacampeonato. Na entrevista, Ancelotti revelou que tem até planos para utilizar o único craque brasileiro da atualidade, rigorosamente num nível muito acima da grande maioria. O treinador comentou que a melhor posição para Neymar atual na seleção “é mais centralizado”, próximo do gol adversário. Sem dúvida, Carlo está certo, pois é nesse setor que normalmente o jogo se decide. E mais: limita o adversário a optar por cometer uma falta ou uma jogada violenta, mesmo que fora da área. O risco de gol numa cobrança é muito alto e a chamada bola parada, no plano tático que domina o futebol mundial, onde a pressão é permanente, tem sido um fator decisivo. Outro ponto importante são as manifestações de jogadores consagrados defendendo a convocação. Além da qualidade técnica, Neymar tem ótimo ambiente com o grupo, facilitando rápida integração. Craques como Romário, Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho destacaram a importância de Neymar para o time nacional. Ainda na entrevista, Ancelotti fez apenas uma ressalva: para ser convocado, o jogador tem que estar 100% fisicamente, pelo grau de exigência de uma Copa do Mundo. Quanto a isso, nada a contestar, porém, em nome da qualidade e da genialidade, vale investir ou arriscar em um atleta que pode fazer a diferença. O Brasil já viveu dúvidas semelhantes com Reinaldo, gênio do Atlético-MG, e com Ronaldo Fenômeno, na Copa de 2002, conquistada pela seleção brasileira. Ronaldo é uma das maiores histórias de superação do esporte. Após graves lesões no joelho, que quase encerraram sua carreira, ele marcou oito gols naquele Mundial e, na final, contra a Alemanha, foi decisivo, balanço as redes duas vezes, uma delas num rebote do goleiro Oliver Kahn. Detalhe: durante a competição, Ronaldo jogou com dores na virilha, exigindo tratamento intensivo nos intervalos de cada rodada. E por sua atuação na final, foi eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa em 2002. Entrou também para a história a imagem do último jogo, quando ele adotou um corte de cabelo inusitado, do famoso personagem Cascão, para desviar o foco da mídia sobre suas condições físicas. Já tivemos Copas do Mundo em que o treinador desprezou a qualidade técnica de jogadores e o resultado foi o fracasso. Em 1978, o competente Cláudio Coutinho simplesmente ignorou Falcão e terminamos como “campeões morais” na Argentina. É verdade que a perda do título também envolveu suspeitas de arranjo no confronto entre argentinos e peruanos, que terminou com uma goleada por 6 a 0 para a seleção portenha. Com esse resultado, até hoje um dos mais controversos de uma Copa do Mundo, a Argentina garantiu no saldo de gols uma vaga na final contra a Holanda e terminou campeã, em meio à ditadura militar que usou e abusou politicamente da conquista. Outra polêmica envolvendo convocações ocorreu em 2010, quando o técnico Dunga ignorou, por coincidência, o próprio Neymar e ainda Paulo Henrique Ganso, dupla do Santos que fazia grande sucesso. A alegação do treinador foi de que o craque santista tinha começado a se destacar bem próximo da Copa e não tinha experiência internacional. Argumento absurdo, basta lembrar de Edu, convocado com 16 anos, e do próprio Pelé, campeão do mundo aos 17 anos. A vida é feita de experiências e exige bom senso. Com certeza, Carlo Ancelotti tem tais atributos.