Sem dúvida, não existe no Brasil, pelo menos nos últimos cinco anos, um técnico mais vitorioso do que o português Abel Ferreira. Numa análise rápida, são 11 títulos, de todos os níveis, desde a Libertadores por duas vezes, em 2020 e 2021, até o Campeonato Brasileiro, Paulista, Copa do Brasil, Recopa Sul-americana e até Supercopa do Brasil. Há muito se tornou o treinador mais vencedor da história do Palmeiras. Os números e conquistas são incontestáveis. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É também um profissional diferenciado do ponto de vista cultural e pessoal. Tem postura, nas entrevistas dificilmente comete erros gramaticais e se destaca principalmente pela sinceridade, além de não se acovardar diante de jornalistas ou radialistas. Todo esse perfil lhe dá autoridade para fazer alertas e se revoltar contra injustiças ou ignorâncias. Depois de garantir a classificação do Palmeiras para as quartas de final da Libertadores, no Paraguai, Abel fez mais um desabafo sobre a pressão e obsessão por resultados no futebol, principalmente no Brasil. Seu diagnóstico foi direto, sem rodeios: “O futebol, de um modo geral, está doente. Por quê? Porque, se não ganhar, és fraco. Se não ficares em primeiro, não prestas. O segundo é uma m... e vamos por aí adiante”. Alertou ainda que o problema não ocorre somente no futebol brasileiro, o quadro doentio é geral, pouca gente valoriza o esforço daqueles que lutam e tentam obter sucesso. Abel Ferreira tem razão, no passado recente, em que o Palmeiras se viu ameaçado de cair numa competição eliminatória, a torcida protestou, literalmente “pediu sua cabeça na bandeja” e até ameaçou invadir o centro de treinamento. Não conseguiu, é verdade: no Palmeiras, local de protestos e reclamações é a arquibancada. A última revolta inaceitável do torcedor palmeirense foi no confronto contra o Cerro Porteño, quando o time empatou em casa e iria decidir a classificação no Paraguai. O time foi e venceu, curiosamente, com mais um gol de cabeça do zagueiro paraguaio Gustavo Gómez. Depois da vitória, Abel resolveu novamente desabafar, envolvendo até a Imprensa, que segundo ele, pelo menos em parte, intoxica o futebol brasileiro. Não generalizou, é verdade, mas deixou claro que, se for o caso, vai até divulgar os nomes. Fez a ressalva que até admira alguns jornalistas, pelo respeito e preparo que demonstram durante as entrevistas coletivas de pós-jogo. Abel está coberto de razão, principalmente nas redes sociais, onde todos se apresentam como especialistas e com autoridade auto-conferida. O clima é realmente tóxico, com exageros de toda ordem e até ofensas pessoais. Há, ainda, os chamados ‘influencers’, pessoas com um grande número de seguidores a disparar todo tipo de comentário. Alguns sem um mínimo preparo intelectual. Impossível ignorá-los, muitas vezes rebater é pior, só agrava a situação ou fortalece o autor, porém, tem de haver limite. Nada contra a liberdade de expressão, apenas há um mínimo para a prática da virtude. Um dos grandes gênios da Fórmula 1, tricampeão mundial, o brasileiro Nelson Piquet, disse certa vez, com sua tradicional irreverência, que o segundo colocado é “o primeiro dos últimos”, refletindo bem o sentimento da grande maioria dos brasileiros. É um pensamento infeliz. Em nenhuma competição profissional há dois vencedores, desde uma Copa do Mundo até um torneio simples, em qualquer modalidade. O segundo na classificação tem muito mérito, assim como, no mínimo, o terceiro. Nem numa Copa do Mundo são valorizados, a glória normalmente se limita ao campeão. A revolta de Abel Ferreira é pertinente e deveria ser objeto de reflexão geral, para mudar a cultura do futebol brasileiro. Até agora, praticamente no início do segundo turno do Campeonato Brasileiro, já foram demitidos 14 treinadores, o mais recente foi Luis Zubeldia, do Fluminense, depois de uma sequência de oito jogos sem vitória. Nomes consagrados, como Renato Gaúcho, Dorival Júnior, Fernando Diniz, Tite e até Filipe Luis, atualmente no Mônaco, dentre outros, também foram sumariamente desligados de seus cargos. A pressão dos torcedores e de parte da imprensa, aliada à falta de resultados, é quase sempre a razão maior das demissões. No caso de Abel Ferreira, não se justifica: além das conquistas, desenvolve uma política de constante renovação do elenco, revelando grandes jogadores e indiretamente viabilizando ótimas negociações com o exterior. O próximo pode ser Allan Elias, de apenas 22 anos, pretendido pelo Napoli. O Palmeiras, por enquanto, descarta o negócio. Contudo, fixou os direitos em R\$ 233 milhões. Em síntese, Abel Ferreira continua contribuindo muito para o futebol brasileiro e para as relações com todos os envolvidos com o futebol. É um bom exemplo a ser seguido e ouvido. Seu alerta é profundo.