(Reprodução Twitter Santos FC) Faz mais de 40 anos, era praticamente a metade dos anos 80. No campo, apenas um jogo da categoria de juniores, reunindo jogadores que sonhavam em passar para o profissional, em busca de sucesso e um bom contrato. O palco era a Vila Belmiro, que semana passada viveu mais uma solenidade em homenagem ao patrono Urbano Caldeira, cuja história é sinônimo de paixão e dedicação ao Santos. No meio de campo do time, um dos titulares era um garoto ainda franzino, sonhando um dia em atuar pelo profissional do Santos. No alambrado, atento, um relativamente jovem Júlio César Castro Espinosa, contratado inicialmente como preparador físico e depois promovido a treinador, como muitos outros pelo Brasil. Ao seu lado, como fiel escudeiro, Carlito Macedo, que até hoje credita muito de seu conhecimento ao velho amigo, que faleceu em 2022, em Florianópolis. Espinosa assumiu inicialmente como interino, substituindo o ex-goleiro e treinador Carlos Castilho, que foi para o Palmeiras e depois para a seleção da Arábia Saudita. Era um profissional moderno, em termos de preparação física, e ousado, além de sempre demonstrar uma cultura diferenciada. Sabia usar as palavras como poucos, principalmente com termos motivacionais. O time profissional tinha um jogo difícil no final de semana, pelo Campeonato Paulista, contra o Juventus, em São Paulo. Júlio Espinosa tinha problemas para definir o time, especificamente na lateral-direita, já que o lateral Gilberto não vivia um grande momento. Com muita atenção, fixou suas observações num meio-campista que demonstrava habilidade, mobilidade e grande capacidade de marcação. Seu nome? César Sampaio, cuja carreira mudaria radicalmente em questão de minutos. Após a partida, Espinoza e Macedo chamaram César Sampaio e indagaram se estaria disposto a jogar na lateral direita contra o Juventus. Ao retornar ao Santos para integrar a comissão técnica de Pedro Caixinha, o ex-jogador, com seu tradicional sorriso, lembrou aquele momento: “Eu estava cheio de contas para pagar, não pensei duas vezes e disse que estava pronto para jogar onde ele mandasse. Se não me equivoco, o Santos perdeu por 1 a 0, mas fui bem, pelo meu lado não passou nada”. E foi bem mesmo, tanto é que foi rapidamente integrado ao profissional. E atuou como lateral durante mais de seis meses, retornando posteriormente para o meio-campo, onde construiu uma carreira que, além do Santos, envolveu Palmeiras, São Paulo, Japão e Espanha. Nos últimos anos, dentre outras funções, por cerca de cinco anos, foi auxiliar técnico de Tite na seleção brasileira e Flamengo. Nas muitas conversas que teve com César Sampaio e nas palestras de pré-jogo, Júlio Espinosa dizia sempre que o jogador precisava ser soberano em cada lance, indicando claramente ao adversário que tinha o exato domínio da bola. César Sampaio jamais esqueceu essa lição e viveu um momento importante em plena Vila Belmiro. Numa partida oficial, em meio a dois adversários, próximo à linha lateral e defronte ao banco de reservas onde estava Júlio Espinosa, Sampaio dominou a bola, driblou um, enganou outro e ensaiou mais uma jogada de habilidade. O treinador, aos berros, deu uma sonora bronca no jogador, determinando que passasse a bola para um companheiro de time. Sampaio ainda deu mais um drible, antes de servir um de seus colegas. Na sequência, olhou para Júlio César Castro Espinosa e gritou: “Calma, professor, eu estou soberano no lance”. O treinador sorriu, sentou no banco de reservas e aplaudiu César Sampaio. Ao lembrar ontem todos os detalhes do momento, César Sampaio deu uma sonora gargalhada e reconheceu a importância do treinador na sua carreira. E, como recado aos mais jovens das categorias de base, acrescentou que a oportunidade aparece quando menos se espera.