(Cesar Greco/ Palmeiras) É inegável que Abel Ferreira é hoje o melhor técnico do futebol brasileiro. O grande economista brasileiro Antônio Delfim Netto, já falecido, disse certa vez que os números não se agridem. Quando utilizados corretamente, transmitem a realidade, a mais pura verdade. As conquistas desde que chegou ao Brasil, até então um ilustre desconhecido, expõem sua competência a valores. Conta também a seu favor a formação particular: tem licenciatura em Educação Física pelo Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCE) e ainda a Uefa Licence pela Uefa Academy, na prática, licença de treinador. Numa rápida comparação com a grande maioria dos treinadores brasileiros, é no mínimo diferenciado. Nas entrevistas, dificilmente comete erros gramaticais, ao contrário dos nossos profissionais. No geral, mistura apenas o português de Portugal com nosso idioma, mas sempre se faz entender. Jamais, por exemplo, fala “equipe”, é sempre “equipa”, como se estivesse em sua terra natal. É óbvio que não é perfeito, contra si tem principalmente o comportamento explosivo durante as partidas. Na lateral, acompanhando os jogos de seu time ou orientando seus jogadores, já fez de tudo, tendo sempre como alvo os árbitros em geral. Porém, já foi além, passando dos limites, com chutes aos microfones de captação de ambiente, colocados nas proximidades de sua área de atuação por emissoras de rádio e televisão, até gestos obscenos e discussões com atletas adversários, sempre em defesa de seu time e na busca pela vitória. Pois bem: na semana passada aprontou novamente, chutando mais um equipamento e registrando um recorde: desde que chegou ao Brasil, tomou 101 cartões, 87 amarelos e 14 vermelhos. Segundo levantamento de abril do GE, do Grupo Globo, Abel Ferreira também respondeu a 20 processos no Superior Tribunal de Justiça Desportiva. O segundo colocado é Fernando Diniz, que acumula 65 cartões amarelos e 11 vermelhos. É outro que não se contém durante os jogos. Muitos outros também se destacam pela falta de educação e respeito, vão da gesticulação exagerada às ofensas e gritos. Quem mais sofre é o quarto árbitro, aquele que fica do lado de fora, em frente à linha central. É o “fiel depositário” dos protestos e reclamações variadas, de nada vale seu esforço para, na base do diálogo, tentar aplacar a fúria dos treinadores, auxiliares e os reservas. A mais recente explosão de Abel Ferreira ocorreu no último dia 30, durante o empate do Palmeiras contra o Mirassol, por 1 a 1, no Estádio Maião. Novamente revoltado contra a arbitragem, literalmente deu “mais um bico” num microfone. A cena causou forte repercussão na mídia e mais uma denúncia da Procuradoria ao STJD, com base no artigo 258 do CBJD – conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva. Já foi julgado, na última sexta-feira, e punido com dois jogos de suspensão. Porém, o jurídico do Palmeiras conseguiu ontem um efeito suspensivo e o treinador poderá comandar o time hoje contra o Botafogo. Essa medida vale até o julgamento pelo Pleno. Assim mesmo, protestou, é claro, dizendo textualmente: “Não matei ninguém, vivo o futebol intensamente”. Vale lembrar que há pouco tempo cumpriu seis jogos de suspensão. Em síntese, é um infrator contumaz, ou reincidente específico. Em 2022, ao participar da 26ª edição da Bienal do Livro, revelou que com frequência leva broncas de sua filha em razão do temperamento explosivo. E acrescentou, mostrando um outro lado de sua forte personalidade: “Apesar das pessoas acharem que sou um cara bruto, sou a pessoa com o coração mais mole do mundo. Só que eu me transformo quando o árbitro apita. Minha filha já disse: ‘Vai ver o que você fez, não é exemplo para ninguém’. Aí vejo o vídeo e fico com vergonha de mim mesmo”. Essa reação, sem dúvida, ocorre quando baixa a adrenalina do jogo e recupera o equilíbrio emocional. É compreensível, mas seu comportamento tem que ser condenado, sob nenhuma hipótese pode deixar que a emoção domine a razão. As seguidas suspensões têm causado prejuízo ao Palmeiras. Nessa reta final do Brasileirão, na disputa direta pelo título com o Flamengo, a pressão vai aumentar ainda mais, a diferença entre os dois times é de apenas um ponto. E tem também a Libertadores e a Copa do Brasil, competições em fases aguda e decisiva. A Abel, portanto, só há uma saída: o autocontrole, que é a capacidade de gerenciar as próprias emoções, impulsos e desejos em situações de estresse, ou uma boa dose de calmante ou ansiolítico, do tipo Rivotril ou Frontal 0.50.