(Reprodução) É no mínimo estranha a forma como ocorreu a demissão sumária do técnico Filipe Luís, do Flamengo. O desligamento foi abrupto, logo após o time ter aplicado uma goleada histórica no Madureira, por 8 a 0, pelo Campeonato Carioca. Praticamente ninguém esperava, principalmente porque, pelo menos aparentemente, a relação entre clube e treinador era relativamente positiva. Via de regra, as demissões de técnicos no Brasil ocorrem em função dos resultados, o que, convenhamos, é até natural, ainda que não seja o ideal. As pressões contra campanhas negativas são sempre grandes, dos mais variados setores, notadamente das torcidas, cujas lideranças são impacientes e muitas vezes extrapolam o direito de protestar ou exigir mudanças. É verdade que Filipe Luís, no período recente, perdeu duas decisões: uma na Recopa Sul-Americana, com duas derrotas para o Lanús, uma na Argentina, por 1 a 0, e a segunda em pleno Maracanã, por 3 a 2, na prorrogação, depois de estar vencendo no placar agregado por 2 a 1; e outra na Supercopa do Brasil, para o Corinthians, por 2 a 0, em Brasília. No mínimo, em tese, duas grandes oportunidades para “troca de comando” por ser o Flamengo e pela cultura do futebol brasileiro. A imagem de gestão modelo talvez não tenha permitido, adiando uma decisão que a priori já era consenso internamente, pelo menos entre o presidente e a diretoria de futebol. Nesse contexto, importante destacar também a boa imagem de Filipe Luís, de um profissional correto e notadamente competente, construindo rapidamente uma carreira de sucesso. O treinador chegou até mesmo a ser cotado para assumir a seleção brasileira, em meio à incerteza da contratação de Carlo Ancelotti. O que mais surpreende, dando margem a imaginar que algo grave aconteceu nos bastidores, é que o desligamento ocorreu mesmo com um aproveitamento de quase 70% de resultados em 101 jogos, com 63 vitórias, 23 empates e somente 15 derrotas. E mais: ao longo do trabalho, conquistou Copa do Brasil de 2024 e Carioca, Supercopa, Libertadores e Brasileirão do ano passado. Tal campanha o tornou o segundo técnico mais vitorioso da história do clube. Desde a demissão, foi grande a especulação para descobrir o que realmente levou a diretoria a tal decisão. É preciso também lembrar que Filipe Luís renovou com o Flamengo recentemente, ainda que numa negociação com momentos de estresse. Por muito pouco, o processo não foi encerrado, por uma grande distância entre a pedida do treinador e o teto estabelecido pelo clube. O impasse, contudo, foi superado, a permanência foi acertada. Pelo visto, porém, ficaram sequelas e a demissão foi inevitável, com prejuízos para os dois lados. Para o Flamengo, arranhões profundos na imagem de um clube modelo e exemplo de gestão; para o técnico, dúvidas sobre seu perfil profissional/ético e competência em comandar um grupo com grandes jogadores. Segundo consta, durante as conversas para renovação de contrato, Filipe Luís teria aberto negociação com o Chelsea, que não atravessava uma grande fase na Premier League. Oficialmente, nada foi confirmado. Chamou muito também a atenção a velocidade com que o Flamengo anunciou seu substituto, o português Leonardo Jardim, que realizou um bom trabalho no Cruzeiro. Praticamente em 24 horas, dando margem a imaginar que há vários dias o Flamengo encaminhava a sua contratação. Jardim é um técnico vitorioso, com resultados expressivos, como a conquista do título francês na Ligue 1, dirigindo o Monaco. E mais: foi ele que lançou Mbappé, hoje no Real Madrid. Foi campeão também pelo Al-Hilal e pelo Olympiacos, da Grécia, sempre com estilo de jogo ofensivo e boa gestão de elencos. E ainda é um homem independente, proprietário até de uma quinta na Ilha da Madeira, em Portugal, com produção de vinho e azeite, exportados para vários países. Com certeza, um técnico do status do Flamengo atual e com grande possibilidade de realizar um grande trabalho. Nada, porém, apaga o processo envolvendo Flamengo e Filipe Luís. Sem dúvida, houve uma derrota mútua: ambos perderam e comprovaram que infelizmente não são diferenciados.