(Unsplash) O ex-técnico Evaristo de Macedo disse certa vez que no futebol não há justiça. E não tem mesmo, a história comprova isso em muitos momentos. No contexto mais popular, muito conhecido também nesse esporte, há outra máxima: “Quem não faz, toma”. Ontem, em Wembley, um dos templos sagrados do futebol, o Borussia Dortmund jogou muito, criou bastante, teve bola na trave, parou em Courtois pelo menos duas vezes no primeiro tempo e perdeu para o incrível Real Madrid por 2 a 0. O time alemão também teve azar, em mais um lance de profundidade, a bola bateu na parte de dentro da trave e, em vez de entrar, como seria natural, cruzou a linha fatal e frustrou a grande torcida amarela. Foram dois tempos distintos, um puramente alemão e outro com o Real Madrid um pouco melhor. O roteiro, porém, estava escrito, prevalecendo mais uma vez o talento, em vez da aplicação tática, o esforço e a dedicação em campo. Na verdade, o Real Madrid é predestinado, tem time em campo e fora dele, passando pelo presidente Florentino Pérez e o impecável treinador Carlo Ancelotti. Aliás, o treinador ontem deixou de lado sua fleuma, seu comportamento contido e, mesmo de terno, seu tradicional colete e a costumeira goma de mascar, vibrou como iniciante. Já foi campeão da Champions League sete vezes – cinco como técnico e duas como jogador. Essa, contudo, foi especial, pela circunstância do jogo. Além de competente, tem muita sensibilidade. Ao substituir Tony Kroos, alemão que ontem encerrou sua carreira no futebol de clube, permitiu que a torcida o reverenciasse. Na entrevista pós-jogo, disse textualmente: “Que maneira de encerrar a carreira”. Kroos agora jogará apenas a Eurocopa, pela Alemanha, e depois vai curtir a condição de um dos melhores jogadores do mundo. Um especialista na posição, com um estilo moderno, jamais se limitando ao trabalho de marcação. Partiu dele a cobrança do escanteio que terminou com o gol de Carvajal, um herói improvável num time de tantas estrelas. Ancelotti fez o mesmo com Vinícius Júnior, substituindo-o pouco antes do final da partida. O jogador brasileiro, que enfrentou uma virose dois dias antes do jogo, no primeiro tempo não teve espaço para jogar, quase sempre marcado por um, dois e até três jogadores. Mas, craque decide o jogo, essa também é uma máxima do futebol. No segundo tempo, depois de uma falha da defesa alemã, recebeu livre e consolidou mais uma grande vitória do Real Madrid. Vibrou como nunca e na comemoração mandou o recado: “Eu estou aqui”. Vinícius mereceu mais esse lindo momento. Mesmo sofrendo muito com manifestações racistas, com perseguições e violência dentro de campo, foi o craque do Real Madrid na temporada encerrada ontem. Com certeza, merecia. Sua resposta às hostilidades veio no campo. Segundo especialistas, caminha firme para ganhar a famosa Bola de Ouro, o troféu individual mais cobiçado pelos jogadores. Curiosamente, nunca colocou tal conquista como uma obsessão, pelo contrário, manteve o foco em crescer como homem e como atleta. Vinícius foi comprado pelo Real Madrid há alguns anos por apenas R\$ 45 milhões de euros, uma quantia irrisória por tudo que fez e fará no futuro. Está hoje entre os três jogadores mais valorizados do mundo. Segundo ele, o segredo do Real Madrid passa pelo espírito de grupo, “ninguém tem ego por aqui, o pensamento é coletivo”. Sem dúvida, o futuro de Vinícius Júnior, Rodrygo e muitos outros é brilhante. Em breve, a esse grupo se juntarão o incrível Endrick e muito provavelmente a grande estrela francesa e mundial Mbappé. Na prática, um novo time de galácticos. Fica difícil imaginar como Ancelotti conseguirá escalar o time e controlar um elenco de tanta dimensão. Esse inegavelmente será mais um desafio na carreira do treinador. Sua autoridade natural e seu currículo dão esperança de que o Real Madrid continuará construindo uma linda história. Como os espanhóis celebram a mística do Real Madrid, que vence “aconteça o que acontecer”. Só a Champions League o Real Madrid conquistou 15 vezes.