Técnico do Uruguai, Marcelo Bielsa, tem o apelido de "El Loco" (Reprodução/X/Seleção Uruguaia de Futebol) O técnico da seleção do Uruguai, o argentino Marcelo Bielsa, é conhecido como El Loco. O apelido decorre muito mais de seu estilo à beira do gramado, durante os jogos, e de algumas reações fora do campo. Bielsa tem um pouco do estilo de Jorge Sampaoli, literalmente “joga com o time” durante os 90 minutos. O ex-técnico do Santos é mais inquieto, não fica um minuto parado na área reservada aos treinadores, enquanto que Bielsa permanece de cócoras, orientando e exigindo o máximo de seus jogadores. São, inegavelmente, duas grandes “figuras” do futebol mundial. Extremamente táticos, ao contrário da grande maioria dos treinadores no Brasil, e ousados. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Bielsa é mais ortodoxo. O gol e o espetáculo continuam sendo o grande foco de seus trabalhos. Sampaoli curte hoje um período de recesso no Rio de Janeiro, estado que adotou no Brasil, à espera de um novo convite. Consta que são várias as propostas, mas nenhuma o seduziu até agora. Sem estrutura e principalmente um elenco qualificado, rejeita e estende seu período de recesso. Bielsa, a exemplo de Sampaoli, não tem nada de louco. O apelido teve origem na Argentina, quando dirigia um time local e, após uma derrota por 6 a 0, um grupo de torcedores resolveu ameaçá-lo protestando defronte à sua casa. O treinador, segundo consta, não hesitou em enfrentar a massa, aparecendo na rua com uma granada na mão e alertando que, se não fossem embora, literalmente “explodiria todo mundo”. Rapidamente, o grupo raivoso sumiu, desistindo da ação violenta. Na sexta-feira, ele concedeu entrevista coletiva e fez uma profunda reflexão sobre o futebol mundial, mais especificamente sobre o momento do esporte no Cone Sul. Com certeza, merece uma avaliação maior por todos os setores, entre especialistas, dirigentes e gestores. Num primeiro momento, criticou a venda de jovens jogadores sul-americanos ao futebol europeu, citando Endrick, recente revelação do Palmeiras, já negociado com o Real Madrid. Depois da pergunta de um repórter, rigorosamente desandou a falar sobre o atual momento do esporte. Demonstrando grande memória, desafiou os presentes a lembrarem a formação do São Paulo em 1992, sob o comando de Telê Santana, a quem qualificou como “um treinador monumental”. “O São Paulo tinha uma formação de todos os jogadores da seleção brasileira, todos jogando no futebol local. Vejam o que passou com o pobre futebol sul-americano”. Bielsa recordou que jogavam no São Paulo atletas como Raí, Antônio Carlos, Ronaldo, Cafu, Pintado e Müller, dentre outros. E acrescentou: “Todos jogadores ‘europeus’, mas antes de irem para a Europa jogaram duas finais de Libertadores”. Ainda em sua reflexão, fez indagações profundas, questionando, por exemplo, o que aconteceu com o esporte, que está perdendo sua conexão com o aspecto social. “O que ocorreu com o futebol, que é propriedade popular essencialmente. Por quê? Os pobres têm pouca capacidade de acesso à felicidade, porque não dispõem de dinheiro para comprar a felicidade. O futebol é de origem popular”. Com certeza, El loco tocou em um ponto importante: nas ultimas décadas o futebol perdeu sua ligação popular. O Rei Pelé, aliás, há muito tempo alertou que o esporte estava virando puramente negócio, se afastando de sua origem e da grande maioria dos torcedores, tornando-se mais um espetáculo elitizado e movimentando milhões e mais milhões de dólares e euros. Houve um tempo em que alguns estádios, como o Maracanã, tinham um setor chamado de “geral”, com preços bem populares. Tais espaços foram simplesmente extintos, sobrando apenas as arquibancadas, muito provavelmente com prazo fixo de validade. Segundo Bielsa, esse futebol, “que era uma das poucas coisas que os mais pobres mantinham”, já não existe mais porque aos “17 anos Endricks vão”, assim como Estêvão, que qualificou como “winger” (extremo, em tradução literal) do Palmeiras. Sem dúvida, o futebol sul-americano é hoje o submundo ou o terceiro mundo, sem condições de resistir ao poder econômico. Mais parece uma linha de produção. Pelos três jovens valores, o Palmeiras apurou cerca de R\$ 950 milhões, quantia que nenhum clube do Cone Sul pode rejeitar. Por isso, apesar de competitivo internamente, o nível nacional é baixo. O treinador, após se questionar porque enveredou por tal reflexão – “sei que tudo isso só vai me trazer críticas” – também falou sobre a tecnologia no futebol. Com humildade, admitiu que inicialmente imaginou que o uso de recursos técnicos iria auxiliar o esporte, porém, considerou que, na prática, hoje, traz um dano ao futebol. Para ele, na medida em que o jogo se torna plenamente previsível, cada vez mais perderá seu atrativo. Por fim, disse ter certeza que o futebol está em um processo decrescente. Por tudo isso, está claro que El Loco não é louco. Vale, no mínimo, o debate, sem emoção.