Com a venda de Allan, pelo Palmeiras, para o Manchester City, o Brasil voltou à liderança de atletas estrangeiros na Premier League. Para muitos, o Campeonato Inglês é o melhor e mais disputado do mundo, principalmente por reunir os melhores jogadores. É também o mais forte financeiramente e nenhum clube do chamado terceiro mundo consegue resistir às suas propostas. O alvo da última ação em território brasileiro foi Allan. O clube paulista fez de tudo para segurar o jovem de 22 anos, mas quando a proposta chegou a R\$ 240 milhões, o martelo foi batido. Como ocorreu com Endrick e Estêvão, sendo o primeiro vendido ao Real Madrid e o segundo, para o Chelsea. Segundo levantamento do Transfermarkt e matéria publicada pelo UOL, com Allan o Brasil chegou a 32 jogadores na Premier League, assim como a França. Pelo 5º ano seguido, nosso país é um dos líderes de estrangeiros na Inglaterra. Na temporada 2026/2027, iniciada há uma semana, o clube com mais jogadores brasileiros é o Nottingham Forest, com cinco: John, Jair Cunha (ambos ex-Santos), Murilo, Morato e Igor Jesus. Na sequência, vem o Arsenal, com Gabriel Magalhães, Gabriel Martinelli, Gabriel Jesus e Bruno Guimarães. Esse número pode cair para três, já que Martinelli, que perdeu espaço no time e pode se transferir para o futebol saudita, outro núcleo que não tem limite para realizar suas ambições. A capacidade financeira de centros europeus demonstra que o Brasil vive uma realidade diferente, sendo impossível competir, pois na prática somos “produtores e exportadores”, talvez contribuindo para nossa balança comercial. Infelizmente, não há outra saída. Se não for assim, impossível sobreviver com um futebol brasileiro tão inflacionado, ainda que tecnicamente bem inferior a países como Inglaterra, Espanha, França e até Itália. A razão maior desse quadro triste é o modelo de gestão. Um bom exemplo são os clubes ingleses, baseados em sociedades comerciais de capital privado com forte profissionalização executiva, centralização, divisão igualitária de receitas de televisão e forte apelo comercial global. A estrutura é corporativa, com os clubes funcionando como empresas com acionistas, contabilidade auditada e diretores cobrados por metas de desempenho financeiro e esportivo. Grandes investidores e fundos internacionais comandam boa parte dos clubes que integram o chamado primeiro escalão mundial, sob rígidas regras de sustentabilidade financeira. Um ponto importante é a venda coletiva de mídia, para posterior distribuição entre os clubes, levando em consideração também as performances técnicas. Na essência, todos são beneficiados, garantindo um mínimo de equilíbrio nas competições. Para o Brasil, a única opção é migrar gradativamente para um modelo semelhante ao inglês, de modo a primeiro sobreviver e depois crescer, atingindo um nível que permita competir com os grandes centros da Europa. Muitos são os clubes brasileiros que enfrentam séria crise financeira. É triste, por exemplo, observar o quadro dos times de Campinas, Guarani e Ponte Preta. O primeiro está na Série C do Campeonato Brasileiro e, ontem, foi eliminado ao final da primeira fase da competição. Já o segundo é o último colocado da Série B e praticamente rebaixado à terceira divisão nacional. A equipe da Ponte Preta, que joga hoje contra o América-MG, pela 25ª rodada da Série B, embarcou ontem para Belo Horizonte com um grupo formado inteiramente por jogadores das categorias de base. A partida marca a estreia do técnico Gilson Kleina, em sua sexta passagem pelo clube. O treinador, porém, não poderá contar com o elenco profissional, já que o grupo segue paralisado em protesto contra os salários atrasados. Com certeza, ao final da competição, cairá para a Série C, nivelando-se ao Guarani, seu eterno rival. Em sua linda história, a Ponte Preta sempre teve grandes times e revelou jogadores importantes, alguns até convocados para a seleção brasileira. Também participou da célebre final do Campeonato Paulista de 1977, contra o Corinthians, acabando derrotada por 1 a 0, numa partida envolvida em grande polêmica pela expulsão do atacante Rui Rei, ainda no primeiro tempo. O Guarani, campeão brasileiro, já viveu até o risco de ver seu estádio, o famoso Brinco de Ouro da Princesa, ir a leilão para construção de um shopping center. Felizmente, conseguiu evitar. Os dois ex-grandes de Campinas, assim como a Portuguesa de Desportos, de São Paulo, e outras agremiações pelo país, são exemplos de que o futebol brasileiro precisa mudar e evoluir. marciocalves@ymail.com