A menos de uma semana da abertura da Copa do Mundo, pela primeira vez com 48 seleções e disputada em três países, Estados Unidos, México e Canadá, pelo menos oficialmente, ainda não se sabe o time titular do Brasil. Com certeza, até mesmo Carlo Ancelotti tem dúvidas, tanto é que ainda ontem fez experiências no amistoso disputado em Cleveland, no estado de Ohio, contra o Egito. Um bom adversário para esse último teste antes da estreia, contra Marrocos, no dia 13, em Nova Jersey. Egito conseguiu se classificar para a Copa do Mundo e chega ao torneio em busca de um feito inédito: avançar pela primeira vez para a fase de mata-mata. Será a quinta participação em mundiais e tem como grande destaque Mohamed Salah, craque que está de saída do Liverpool, após incríveis temporadas. Está claro que o amistoso do Brasil contra o Panamá, na despedida do Brasil, no Maracanã, mexeu com a cabeça do treinador italiano, tanto em termos de escalação como no que se refere ao sistema tático. Foi visível a diferença de performances entre as equipes que disputaram os dois tempos, com destaque para o que atuou na segunda fase, com a maioria considerados reservas. Do ponto de vista tático, a apresentação também foi distinta, primeiro com o chamado 4-4-2 e depois com clara formação de 4-3-3, com destaque para o meia Paquetá e sua grande capacidade de articulação. Inegavelmente, até pela goleada de 6 a 2, o Brasil da fase final mandou um recado claro para Ancelotti. Tanto é que o treinador não hesitou em mudar bastante a seleção para o amistoso de ontem. O técnico sabidamente gosta de um time ofensivo, sempre deixou claro no Real Madrid e desde que assumiu a seleção Brasileira, há praticamente um ano. No time espanhol, principalmente contra o arquirrival Barcelona, colecionou derrotas importantes, justamente pela fragilidade defensiva, a partir do meio campo. Experiência e conhecimento de futebol tem de sobra e está longe de ser um treinador teimoso, do tipo que se fecha em torno de ideias e não admite mudanças. Por isso mesmo, mudou no amistoso contra o Panamá e alterou no jogo de ontem contra o Egito. E manteve a linha de muitas substituições no segundo tempo, provavelmente para as observações finais visando definir o time para a difícil estreia contra o Marrocos. Historicamente, entre a fase final de treinos e o início da Copa, o Brasil sempre mudou, por decisão técnica ou até por sugestões (ou pressão), de líderes do grupo. No mundial de 1970, por exemplo, conforme depoimento de um dos integrantes daquele time mágico, até praticamente a véspera, Marco Antonio era o titular da lateral-esquerda. Pela inexperiência do ex-jogador, porém, Pelé, Carlos Alberto e Gerson sugeriram a escalação de Everaldo, e Zagalo concordou de pronto. Afinal, desafiar os três craques era quase um suicídio. Uma boa dica: vale assistir a Série A Saga do Tri, na Netflix, que retrata os bastidores da seleção num momento em que o Brasil vivia os mais tenebrosos momentos do golpe militar de 1964. A tentativa de utilizar a seleção para esconder o triste período foi visível, a começar pela demissão do jornalista/comunista João Saldanha, que se recusou convocar o atacante Dadá Maravilha, por sugestão do então ditador Garrastazu Médici. O treinador foi incisivo: “Nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala o time”. O resultado de tal ousadia veio rápido: demissão sumária e posse de Zagalo, um velho serviçal da Confederação Brasileira de Futebol. Se alguém tem dúvida de tal subserviência, que procure o Pepe, ídolo do Santos e do futebol brasileiro. Voltando à Copa de 2026: como sempre, o Brasil é um dos favoritos ao título, ao lado de França, Espanha, Alemanha, Inglaterra e a campeã atual, Argentina. Vale lembrar, mais uma vez, que nem sempre vence o melhor, a história registra isso com clareza. Em recentes entrevistas a Galvão Bueno, os campeões mundiais Cafu, Rivelino e Carlos Alberto Parreira evitaram cravar a vitória do Brasil, ainda que destacando as chances da seleção nacional. Rivelino falou em equilíbrio entre as principais equipes; Parreira adotou muita cautela, ressaltando que tradição e consistência histórica pesam na avaliação dos candidatos ao título; e Cafu, por sua vez, disse que o time brasileiro ainda “impõe respeito”, que vive um bom momento, porém, dependendo de alguns ajustes. Em síntese, ninguém garantiu o hexacampeonato. Nem deveriam, afinal, o futebol continua imprevisível. Só resta torcer.