Segundo o jogador, a seleção brasileira está atrás dos demais em termos de organização e planejamento (Vitor Silva/CBF) Na seleção brasileira atual, ele não tem status de estrela. Para muitos, é apenas mais um, sendo titular por falta de uma grande opção. Seu nome é simples, comum como muitos, sem sonoridade: Danilo Luiz da Silva. Além de jogador da Juventus, da Itália, é titular e capitão da seleção. É lateral-direito, como o inesquecível, único e verdadeiro “capita” Carlos Alberto Torres, um dos líderes do Brasil na Copa do Mundo de 1970, no México, onde o time nacional conseguiu o tricampeonato mundial. Em termos técnicos, sem dúvida, difícil estabelecer uma comparação entre os dois. Carlos Alberto foi um dos gênios do futebol brasileiro, enquanto Danilo é bom jogador, mas longe de ser um craque. Tem, porém uma grande história no futebol europeu e jogou até no temível Manchester City, dirigido por Pep Guardiola. Fora do campo, porém, Danilo ganha de goleada na maioria dos atletas brasileiros. Aos 33 anos, é mineiro de Bicas, uma pequena cidade de Minas Gerais. O lateral é poliglota, fala fluentemente inglês, espanhol, italiano e português. No seu tempo livre de jogos e treinos, na Juventus ou na seleção brasileira, investe na leitura de livros, revistas e outros materiais digitais. Via de regra carrega sempre um Kindle, um leitor de livros da Amazon, semelhante a um tablet, com tela eletrônica que simula a aparência de papel. Outro ponto fundamental em sua vida é a família, quando pode registra momentos com os filhos na internet. É, em síntese, um leitor voraz. Literalmente, passa longe dos padrões atuais, onde prevalecem as redes sociais, videogames e festas e churrascos de final de tarde, quase sempre regados a muita cerveja. Por tudo isso, além da longa experiência como jogador, Danilo tem autoridade para falar sobre o difícil momento que envolve a seleção brasileira. Antes da recente derrota para o Paraguai, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, por 1 a 0, Danilo concedeu uma longa entrevista e fez um diagnóstico profundo sobre o time brasileiro. Como se esperava, foi muito feliz. Sem receio, disse que o Brasil “perdeu tempo” com as recentes mudanças de nomes e de comando na própria CBF. E mais: deixou claro que utilizou a mesma linha de raciocínio numa conversa direta que teve com o presidente da entidade, Ednaldo Rodrigues. Aliás, o atual presidente da CBF continua no cargo por força de liminar concedida monocraticamente por um dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Essa decisão deverá avaliada pelo plenário esse mês. Se for cassada, fatalmente a entidade estará envolvida em um novo imbróglio. O jogador deixou bem claro que o Brasil há muito “está deixando a desejar”. Lembrou também que nos últimos dois ciclos de Copa do Mundo a seleção até foi bem, mas não conseguiu vencer. Na sequência, foi novamente bem claro: “Se não conseguirmos vencer com tudo minuciosamente bem, estamos um passo atrás. A gente eu falo como seleção brasileira no geral”. Vale repetir o que o lateral disse depois: “Muita instabilidade, nomes, estratégias, planos... Total renovação ou não. Perdeu-se tempo e agora estamos a um passo atrás das principais potências. Nosso conjunto ainda não está bem feito. Depois da Copa do Mundo perdemos muito tempo e isso eu deixei claro ao presidente (da CBF)”. Essa perda de tempo, inegavelmente, tem a ver com o sonho do dirigente em contratar o italiano Carlo Ancelotti, atual treinador do Real Madrid. Acreditando que conseguiria isso, primeiro improvisou Ramon Menezes no cargo de técnico da seleção. Diante de novos fracassos, deu posse a Fernando Diniz, na condição de interino e trabalhando simultaneamente no Fluminense. Com o “não” definitivo de Ancelotti, demitiu Diniz e chamou Dorival Júnior, muito mais em razão do bom trabalho no Flamengo e no São Paulo. Dorival tem qualidades, mas não é o nome ideal para comandar um time que perdeu sua própria identidade e até a afinidade e respeito com os torcedores. Com a autoridade de quem vive o futebol europeu há mais de uma década, Danilo garante que o problema do Brasil nada tem a ver com material humano. Segundo o jogador, a seleção brasileira está atrás dos demais em termos de organização e planejamento. O jogador cita estar muito seguro em relação à qualidade da “matéria-prima brasileira”, que continua sendo uma das melhores do mundo. A questão na prática, além de planejamento e organização, “é enxergar adiante”. Por fim, demonstrando mais uma vez que se trata de um ser diferenciado, citou o psicólogo e escritor brasileiro Augusto Cury, que disse: “A comparação é o ladrão da felicidade”. O lateral se referiu às constantes comparações de que a seleção não encanta mais como no passado. Ao encerrar, ressaltou que isso só será superado quando o Brasil for novamente campeão mundial. Um diagnóstico perfeito. O Brasil é vítima de si próprio.