[[legacy_image_233950]] Nosso Rei morreu! Como um simples mortal, ainda que não fosse. Quantas lembranças! O que escrever? Nunca pensei que fosse tão difícil elaborar um texto sobre Pelé. Falar o quê? Que foi o melhor, que fez isso ou aquilo? Talvez seja o caso de lembrar alguns momentos que vivemos e simplesmente agradecer. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Muitas foram as vezes em que, por força da profissão, convivi com Pelé. Vários foram os lugares e momentos: na Vila Belmiro, dentro e fora do campo; no vestiário, na arquibancada, na ala da diretoria; no temido setor dos associados especiais, que um dia ele ousou desafiar chutando uma bola contra os torcedores, em sinal de protesto; na Copa da Espanha, no velho barbeiro do eterno Didi, na academia de futebol do inseparável amigo Manoel Maria, na casa de sua mãe Celeste, no Canal 6, em seu escritório na Rua Riachuelo, onde chorou ao escrever uma carta para o filho Edinho, e, num dia incrível, na sua casa no Guarujá, no Jardim Acapulco, ao lado do Kaiser (Imperador) Franz Beckenbauer, com quem fez amizade no Cosmos, nos EUA. Um Rei e um Imperador, acompanhados por dois súditos em uma disputada partida de tênis, e depois numa rápida prova de natação. Na água, foi imbatível e se vingou com a tradicional gargalhada. No campo, uma vez, nos “desafiamos” em uma cobrança de pênaltis, e eu senti a força da tal “paradinha”. Eu fui para um lado e a bola calmante entrou no outro. Além de não fazer o meu, afinal o Rei também era goleiro, ainda tive que suportar uma sonora gargalhada. Não importa, poucos tiveram esse privilégio. Nesse mesmo campo, em um belo dia, o Santos venceu o Botafogo de Ribeirão Preto por 11 a 0 e Pelé fez 8 gols. Uma festa! Também na Vila Belmiro, eu o vi se ajoelhar e encerrar sua carreira no Santos, contra a Ponte Preta. Depois, seguiu para o Cosmos com a difícil tarefa de convencer o americano a gostar de futebol, ou melhor, soccer. No Pacaembu, muitas foram as vezes em que infernizou o Corinthians, criando o célebre tabu de mais de 10 anos. No Maracanã, como torcedor, em julho de 1971, eu o vi se despedir da seleção brasileira numa partida contra a antiga Iugoslávia, com mais de 140 mil torcedores, ao final, gritando “fica” para que continuasse a servir ao Brasil. Pelé deu a volta olímpica, aos prantos, e foi embora. Ele sabia que era a hora de parar. Alguns anos antes, em um amistoso preparatório para a Copa da 1970, no Morumbi, foi colocado na reserva, vestindo a camisa 13, pelo técnico Zagalo, que preferiu fazer uma experiência com Tostão ao lado de Dario. Resultado: 0 a 0 contra a Bulgária – Pelé só entrou no final. Um sacrilégio. Com humildade, o Rei sentou no banco e pouco tempo depois comandou a conquista do tricampeonato no México. Foi a consagração final e a confirmação de que efetivamente era o único Rei do Futebol. Até quando não fez gol, em lances contra a Inglaterra e Uruguai, entrou para a história. Por tudo isso e muito mais que fez no Brasil e no mundo, reverenciado por reis, rainhas, presidentes, ditadores e personalidades mundiais, é difícil aceitar que o Rei morreu. Como no documentário de 2004, Pelé Eterno, imaginava-se que poderia ser o mesmo na vida real. Infelizmente, não. Na França, mais precisamente em 1422, após a morte do rei Carlos VI, surgiu a frase le roi est mort, vive le roi (o rei morreu, viva o rei). Apesar de contraditória, o objetivo era instar os súditos a saudar o novo rei, Carlos VII, naquela oportunidade. Era comum o monarca ter sucessor, independentemente de virtudes, qualidades e perfil. O importante era a sequência do reinado, até para manter o poder e o sistema. Pelé, infelizmente, não deixou sucessor. No futebol, para ocupar o trono, é preciso fazer igual ou ir além. Não se trata de uma simples e automática sucessão. É melhor mesmo que a cadeira fique vazia para sempre, para que ninguém esqueça que Pelé foi único. Foi “coisa de Deus”.