(Divulgação) Os mais velhos, com certeza, lembram bem de Ademir da Guia, filho do grande zagueiro Domingos da Guia. Ambos jogaram no Palmeiras, cada um em sua época, e entraram para a história do clube como craques. Aliás, também jogaram pela seleção brasileira, os dois com um estilo muito técnico. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ademir da Guia recebeu o apelido de “Divino” numa clara alusão ao seu nível técnico e integrou a chamada Academia da Sociedade Esportiva Palmeiras, rótulo dado a um dos maiores times da história do clube. Jamais, porém, foi uma unanimidade. Para muitos, era lento, interferindo negativamente no ritmo do time. Seu jeito de se movimentar em campo até dava essa impressão; na prática, tinha passadas largas, confundindo alguns analistas da época. Até mesmo o técnico Zagallo aderiu a essa tese absurda, apesar de tê-lo convocado para a Copa de 1974. Nessa Copa, o treinador praticamente o ignorou, utilizando-o apenas na disputa pelo terceiro lugar, contra a Polônia, quando o Brasil perdeu por 1 a 0. Ademir jogou apenas 66 minutos, tempo suficiente para expor a falta de visão e sensibilidade de Zagallo. Sua atuação entrou para a história, assim com a fama de um jogador lento que nunca foi. Ademir ainda é um dos maiores ídolos da história do Palmeiras e sinônimo de futebol arte. Jogou 151 partidas pelo Verdão e marcou 151 gols. Ao lado de Junqueira, é o maior campeão da história do clube, com 12 troféus. De Rosis, hoje o senhor vereador Rui Sérgio Gomes de Rosis, que jogou muito tempo com ele no Palmeiras, riu bastante quando indagado se Ademir era um jogador lento. "O Dudu, nosso companheiro no meio campo, pegava a bola e entregava para o Ademir. Ele sabia que a jogada teria sequência numa velocidade incrível. Ele me chamava de Rossinho, lenta era só a fala”. Infelizmente, no futebol atual, outro jogador carrega o mesmo ônus, também de uma forma absurda. Seu nome: Paulo Henrique Ganso, atualmente no Fluminense. Na última quinta-feira, o ex-jogador do Santos, mais uma vez, deu um show de técnica e visão de jogo, levando o seu time a uma vitória por 2 a 0 sobre o mais tradicional rival. Durante mais um Fla-Flu, Ganso protagonizou mais um lance genial, reafirmando sua técnica incrível. Demonstrando que seu nível é realmente diferenciado, de costas e de voleio, deu um passe de calcanhar para seu companheiro, surpreendendo toda a defesa adversária. A jogada terminou no primeiro gol do Fluminense, que mais tarde ainda faria mais um, numa assistência milimétrica do próprio Paulo Henrique Ganso. A jogada do primeiro gol já foi repetida à exaustão nos sites e principalmente mídias sociais. Além da técnica, o lance comprovou que Ganso também tem uma visão privilegiada de jogo, como se tivesse nos olhos uma lente conhecida como grande angular, que amplia a percepção do ambiente. Rigorosamente, Ganso deu um show à parte, lembrando a essência dos craques brasileiros e num momento em que a seleção do Brasil e muitos clubes vivem uma crise principalmente de falta de criatividade. O técnico Dorival Júnior a cada jogo tenta uma solução diferente para dar criatividade ao time brasileiro, altera o meio-campo em todas as partidas e não consegue resolver a questão. No mínimo, deveria dar uma chance a Paulo Henrique Ganso, num sistema que o deixe livre para expor todo o seu talento. Não dá para mudar o estilo do jogador e nem tentar alterar seu ritmo, que, a exemplo de Ademir da Guia, parece lento. Ou que atua numa rotação diferente, como disse o técnico argentino Jorge Sampaoli, quando ambos estavam no Sevilla, da Espanha. O treinador, que pediu a sua contratação, não teve paciência e o deixou apenas como uma opção na reserva. Ganso foi também protagonista de um lance raro no futebol, no final da partida entre Santos e Santo André, na decisão do Campeonato Paulista, no Pacaembu, em 2010. Com seu time com apenas oito jogadores, era preciso gastar o tempo para garantir o título, mesmo perdendo por 3 a 2. Num determinado momento, na cobrança de um escanteio, o jogador deu um leve toque na bola e ficou parado. A bola já estava em jogo, mas todos levaram segundos preciosos para perceber a manobra inteligente do santista. Naquela partida, Ganso ainda se insurgiu contra uma decisão de Dorival Júnior, que pretendia substituí-lo por um jogador mais descansado. O craque se recusou a sair e contribuiu diretamente para uma grande conquista do Santos. O treinador, depois da partida, compreendeu o comportamento de seu atleta, descartando qualquer ato de rebeldia. Aos 35 anos, PH Ganso ainda tem muita força e futebol para encantar o Brasil. Sabe como poucos os atalhos para evitar o desgaste e desfilar como um modelo, transformando o campo numa grande passarela.