[[legacy_image_252855]] Desde que se aproximou do nível profissional no Santos, o meia Ângelo deu sinais de que se trata de um jogador diferenciado. Pela técnica, postura, visão de jogo e velocidade de raciocínio na definição do próximo lance. Qualidades raras, próprias de que tem, no mínimo, grande potencial. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! No futebol, é quase comum, a partir das chamadas divisões de base, surgirem atletas com grandes perspectivas de futuro. No Santos, aliás, isso é quase uma tradição; basta lembrar de Diego, Robinho, Neymar, Rodrygo e, num exemplo extremo: o Rei Pelé. Tem sido normal também os que aparecem e literalmente fracassam e se perdem pelo caminho do futebol. Via de regra, terminam pulando de clube em clube e encerram a carreira de forma melancólica. Desde o ano passado, sem dúvida, em meio à gradativa consolidação de um Marcos Leonardo, por exemplo, a “nova joia” a ser lapidada atende pelo nome de Ângelo. Em tese, tem tudo para confirmar as expectativas: é canhoto, habilidoso e rigorosamente acima da safra que regularmente surge no Brasil. Não tem apresentado, é verdade, uma regularidade de atuação, tanto é que nem sempre é escalado como titular. Quadro normal, trata-se de um jovem, de apenas 18 anos, ainda quase amador e jogando num time fraco, com vários pontos vulneráveis: basta analisar a campanha na fase preliminar do Paulistão 2023. Se a nova desclassificação no torneio não for suficiente, vale recordar a atuação da equipe na decisiva partida contra o Ituano, que valia uma vaga na fase final, representando pelo menos recursos financeiros para tirar o clube dessa eterna ‘pindaíba’. Ou ‘penúria’, para dourar a pílula – expressão idiomática que significa apresentar um quadro difícil, ou desagradável, de uma forma mais suave. Reflexões à parte, a atuação contra o Ituano foi vergonhosa, uma das piores dos últimos tempos. Inaceitável, com sinais de apatia preocupantes, permitindo até ilações envolvendo certa premeditação. Além de perder por 3 a 0, ainda teve que suportar os gritos de ‘olé’, com apoio até de torcedores do Santos. Mais uma página absurda num clube cuja história é de vitórias e grandes conquistas. O único consolo é que tem sido uma rotina; imagina-se que o torcedor sofra um pouco menos, até por não ter expectativas. A solução para reerguer (ou salvar) o Santos é uma só: reforçar o time, com qualidade, não com aventuras ou apostas duvidosas. Investir sem um mínimo de certeza é desperdício financeiro. E o pior: numa fase é que faltam recursos. Se não há como contratar, o que se impõe é manter os poucos bons jogadores e preservar os que têm potencial, como Ângelo. Nos últimos dias, o meia dominou o noticiário, diante do interesse do Flamengo em contratá-lo. Na verdade, foi a segunda vez que o clube carioca tentou levá-lo para o Rio de Janeiro. Até melhorou a proposta, oferecendo 12 milhões de euros (cerca de R\$ 66 milhões), além de outras vantagens, e um salário de cerca de R\$ 500 mil, muito mais do que ganha hoje no Santos. A pressão de Flamengo e Santos para o fechamento do negócio foi grande, cada um com seus motivos. O clube carioca idealizando seu processo de renovação, diante dos fracassos recentes, e o Santos na sua busca permanente de dinheiro. Se o Flamengo insistiu na contratação, seja para utilizá-lo por um longo tempo ou mais tarde realizar um grande negócio com a Europa, cabe concluir que o jogador tem mesmo um grande potencial técnico e que pode representar, no futuro, uma excelente oportunidade de mercado. Felizmente, o negócio não se concretizou e isso se deveu apenas ao jogador, que, apesar da juventude, demonstrou consciência na construção de sua carreira. Poucos, com certeza, recusariam um salário de cerca de R\$ 500 mil e uma vitrine como o Flamengo, apesar da crise atual. Ângelo foi claro: tem um projeto particular de transferência para a Europa, sabe que ainda é cedo e, vale acreditar: é muito grato ao Santos, onde joga desde a infância. Em síntese: disse que não se trata de uma mercadoria que pode ser negociada praticamente à sua revelia. Paralelamente, uma lição para muitos dos jovens que sonham com o sucesso. Em todo esse contexto, além da postura passiva do presidente Andrés Rueda, preocupa a atuação de Paulo Roberto Falcão, coordenador de futebol do Santos que um dia foi consagrado como ‘Rei de Roma’, atuando justamente no meio campo, setor onde Ângelo demonstra grande intimidade. O ex-jogador, corresponsável pela fase atual do Santos, se manteve praticamente em silêncio, talvez por conhecer a realidade financeira do clube. Porém, não se justifica, deveria à primeira hora ter se insurgido contra a transação. Nem de longe lembrou o craque que encantou o mundo do futebol. Fica a lição de Ângelo.