A comparação é inevitável, até por ocorrerem simultaneamente. Uma na Europa, a Champions League, e outra na América do Sul, a Libertadores. Dois torneios importantes, rentáveis e de grande repercussão no futebol mundial. São, sem dúvida, um sonho de muitos, por tudo que significam no futebol mundial. Dentro desse contexto, os graves incidentes ocorridos na partida entre Independiente de Medellín e Flamengo, na última quinta-feira, na Colômbia, são inadmissíveis. Na prática, houve dois minutos de jogo, além de tensão, atos absurdos de vandalismo e ameaças de toda sorte. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os responsáveis foram uma torcida organizada do Independiente, que protestou contra a péssima campanha do time no campeonato nacional e o modelo de gestão do clube. A manifestação chama a atenção por vários aspectos, a começar pela grande quantidade de sinalizadores e de equipamentos de laser, ambos itens proibidos de utilização em qualquer estádio do mundo. No mínimo, de pronto, houve grave falha no trabalho prévio de segurança, que inclui revista policial no acesso ao estádio. Pura negligência, pois o clube e os organizadores deveriam ter avaliado melhor o clima interno e adotado providências. O jornalista Juan Lopesino, em sua reportagem sobre os incidentes, foi claro: “As intenções dos ultras (grupo organizado) já eram conhecidas antes da partida. Eles haviam arquitetado todo tipo de planos para que a Conmebol punisse severamente o clube”. O árbitro da partida, acertadamente, suspendeu a partida de imediato, para evitar o pior. Os torcedores provocaram até pequenos incêndios nas arquibancadas, além de promoverem depredações utilizando cadeiras e barras de ferro. Os jogadores não hesitaram em voltar para os vestiários, temendo invasão do gramado e a própria integridade. Não é a primeira vez, lamentavelmente, que isso ocorre em um jogo da Libertadores. No ano passado, um jogo entre Colo-Colo e Fortaleza, no Estádio Monumental, em Santiago, no Chile, também não terminou. A partida foi interrompida aos 25 minutos do segundo tempo, com o placar ainda em 0 a 0, em razão de tumultos provocados por torcedores, revoltados com a morte de dois amigos nas imediações. O grupo quebrou vidros e alambrados e invadiu o gramado, arremessando objetos e pedaços de ferro. Aos atletas do Fortaleza, só restou correr para os vestiários para evitar o pior. No final, a exemplo do que ocorreu com o Flamengo em Medellín, a partida foi cancelada. Posteriormente, o time brasileiro foi declarado vencedor por WO, com o placar de 3 a 0. Foi uma decisão correta, porém faltou uma punição exemplar ao time chileno por tudo que ocorreu. Impunha-se uma medida como eliminação sumária da competição e até uma proibição de participar das próximas edições. Com certeza, o Flamengo também será declarador vencedor por WO no julgamento da Conmebol e vencerá pelo placar de 3 a 0. Mas, se essa for a decisão, fatalmente os fatos se repetirão, com risco até de ocorrer uma tragédia futuramente. Um dia antes do jogo do Flamengo, o duelo entre Corinthians e Santa Fe teve tumulto logo após o apito final. O goleiro Hugo Souza precisou correr para o vestiário para evitar agressões. Sem dúvida, em relação ao passado, a disputa da Libertadores evoluiu, deixando de lado o clima de guerra. Era um tempo em que as transmissões pela televisão eram raras, dando oportunidade para todo tipo de intimidação e ações negativas. A exibição dos jogos em tempo real serviu para reduzir drasticamente os problemas. Contudo, ainda ocorrem fatos como os que envolveram Flamengo e Fortaleza, que comprometem a credibilidade da entidade que comanda o futebol na América do Sul. Trata-se também de um problema cultural e de educação, com a disputa em campo indo além do futebol. Na Champions League, atualmente na fase final, em nenhum momento ocorrem fatos como o de Medellín e Santiago. Pelo contrário, observamos grandes jogos e respeito ao adversário e ao resultado. A recente partida entre Paris Saint-Germain, da França, e Bayern de Munique, da Alemanha, que terminou com o incrível placar de 5 a 4 para os franceses, é o maior exemplo de que o futebol, apesar da rivalidade, é apenas um esporte, numa disputa sadia. Em síntese, o episódio de Medellín é triste, porém, dá à Conmebol uma nova oportunidade de cravar um passo importante para mudar definitivamente a imagem do futebol no Cone Sul. marciocalves@ymail.com