(FreePik) Alguns passos são apressados. Outros, cadenciados. O relógio e as obrigações ditam o ritmo do desfile incessante na passarela de concreto da grande cidade. Cada um é que sabe de si, dos pés, do bolso e do estômago. Dia útil. Hora da pausa para o almoço. Sanduíches devorados em tempo recorde. Refeições pacientemente consumidas por bocas privilegiadas. Rodolfo fazia parte do segundo time. Caminhava devagar pela calçada do grande centro urbano em direção ao restaurante onde almoçava todos os dias. Era sexta-feira ensolarada e o serviço no escritório de contabilidade estava encaminhado. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Naquele dia, porém, nem mesmo o sol de um quase-verão foi capaz de despertar no rapaz tamanha admiração igual à que sentiu quando avistou, no sentido contrário, uma moça sorridente que corria e desviava graciosamente dos demais transeuntes. Aquele sorriso tão puro parecia um gentil e educado pedido de desculpas por tamanha pressa. Cabelos presos, olhos vívidos. Em uma das mãos, uma pequena pasta e uma bolsa. Ainda que o clima mudasse repentinamente e a chuva desabasse sobre a cidade, a graciosa imagem daquela desconhecida seria capaz de manter o dia iluminado e aquecido. Por que sorria tanto? Teria recebido um aumento de salário? Conquistado um emprego? Ou corria para encontrar alguém querido? Parado, no meio da calçada, Rodolfo a acompanhou com os olhos até onde pôde. Parecia enfeitiçado. Sentiu pena, um vazio inexplicável, saudade de algo que nunca aconteceu. Gostaria de saber mais sobre aquela jovem. Como encontrá-la novamente em uma cidade tão grande, onde raramente as pessoas se esbarram mais de uma vez? Pensou em mudar o rumo de sua caminhada, mas desistiu da ideia. Chegou ao restaurante. Mal tocou na comida. Não entendia o que estava acontecendo. A figura da jovem desconhecida não saía de sua tela mental. Ficou imaginando qual seria o seu nome. “Beatriz? Ana Maria? Não. Nenhum desses. Elisa deve ser o seu nome. Seria um nome perfeito para ela”. Pagou a conta e iniciou o trajeto de volta para o trabalho, na esperança de um generoso acaso que a colocasse novamente no caminho. Mas nenhum dos rostos teve a mesma graça. Nenhum olhar teve o mesmo mistério. Ninguém corria. Todos seguiam a marcha cotidiana dos dias úteis. Caiu a tarde e veio o fim do expediente. Luzes artificiais no universo urbano e mais passos apressados. Todos queriam regressar para as suas casas. Nenhum sinal de Elisa. Caminhando até o ponto de ônibus, Rodolfo não pôde conter um sorriso de resignação. Nunca tivera sorte no amor. Não acreditava que a felicidade dos amores românticos estava na linha do seu destino. Naquele dia, porém, conseguiu descobrir que momentos felizes podem existir, ainda que sejam efêmeros e inesperados.