(Pixabay) Vislumbrou o céu noturno pela janela do apartamento. Não conseguiu ver a lua, que àquela altura da madrugada já ocupava outra posição no firmamento. Algumas estrelas generosas, porém, ainda estavam visíveis dentro da moldura que separava o seu quarto do mundo exterior. Sozinha, e com os olhos tomados por um comovente brilho de melancolia, Carolina lembrou-se das madrugadas no sítio do vovô Cirilo, quando acordava no meio da noite para apreciar, maravilhada, o céu coberto por dezenas de pequenos pontos prateados. Agora, aos 77 anos de vida, tinha que se contentar com as duas ou três estrelas que podia ver de sua janela. Talvez fosse melhor dormir, mas a insônia não permitia. As lembranças pareciam mais vivas naquela madrugada. Pensava muito no amado esposo que havia partido deste plano. Oito meses de saudade. “Será que ele também pensa em mim lá do céu?” Dos três filhos, dois moravam no exterior. Podia vê-los por videochamadas. A tecnologia ajuda muito a encurtar distâncias, mas nunca conseguirá substituir o calor de um abraço ou de um beijo. O caçula, que morava mais perto, sempre a visitava. Durante o dia, Carolina procurava ocupar o seu tempo com as amigas de longa data. Se reuniam para tomar chá, contar novidades e recordar histórias. Aquelas horas pareciam ser mais velozes. Não sentia o tempo passar. Conseguia sorrir. Mas, quando a noite chegava, o sol que ela tentava manter vivo em seu peito se escondia, contra a sua vontade, em nuvens de tristeza e melancolia. Sentia-se só. Parou diante do espelho. Recordou seus 18 anos. Cabelos castanhos que emolduravam o rosto. Um sorriso tímido. Olhos amendoados. O primeiro amor. O primeiro beijo. O pedido de casamento. O início de uma vida a dois. As lutas. Os filhos. As conquistas. As partidas. Os sorrisos. As lágrimas. “Tempo, não me maltrate!” Um choro sentido lhe arrancou da alma as angústias que nela haviam se instalado. Quanto mais botava tudo aquilo para fora, mais alívio sentia. Foi capaz de compreender que aquela melancolia era algo muito pequeno diante de tudo o que Deus lhe permitira viver e do que ainda tinha pela frente. Era preciso ser forte, e essa fortaleza seria possível conquistar com apenas um sentimento: a gratidão. O céu alaranjado anunciava para breve o surgimento dos primeiros raios solares quando Carolina pisou a areia fofinha da praia e admirou as derradeiras estrelas que se despediam da madrugada. “Ainda que eu volte a chorar, guardarei em mim a certeza de que também tornarei a sorrir”.