(Imagem Ilustrativa/Gerada por IA) O sergipano Sebastião da Sanfona morava com a mulher e os três filhos no extremo leste de São Paulo. Trabalhava como cobrador de ônibus. O metrô ainda estava em construção e quem não tinha automóvel dependia dos coletivos que cruzavam a Capital abarrotados de gente. Quando o dono de algum bar chamava, Sebastião fazia bico de sanfoneiro junto com um tocador de triângulo e um zabumbeiro. O forró era divertido, mas o dinheiro sempre curto. Em uma noite de terça-feira, Sebastião chegou em casa e foi informado pela mulher que Martinha, a filha de oito anos, precisava com urgência de um par de óculos. A professora mandou chamar a mãe e avisou: a menina não enxergava a lição na lousa e não estava aprendendo nada. Era preciso levá-la ao oculista o mais rápido possível. Se o salário mal dava para o aluguel e para comprar comida, de onde tiraria o dinheiro para ajudar a própria filha? Sebastião foi até o quarto e olhou para a sanfona de oito baixos que ganhou de um tio quando ainda era adolescente. A única solução seria vendê-la. Com o dinheiro do instrumento, pagaria a consulta e os óculos da filha. Família em primeiro lugar. No dia seguinte, bem cedo, saiu de casa para trabalhar carregando a sanfona. Antes de embarcar no coletivo, contou a história ao motorista Brandão. Arrumaria uma brecha para vender sua sanfona lá no centro da cidade. Sentou-se na cadeira de cobrador e a viagem começou. Cada passageiro que passava pela catraca observava com curiosidade a sanfona deixada no assoalho do ônibus. E o coletivo foi enchendo... Gente simples costuma ter bom coração. Enxerga na dor do outro a própria dor. Ao volante, Brandão falou bem alto para todo mundo ouvir: – Pessoal! Nosso amigo cobrador é músico dos bons. Ele trouxe a sanfona para alegrar o dia da gente! Toca pra nós, Sebastião! O sanfoneiro, surpreso ao ouvir as palavras do motorista, ficou sem reação, mas logo um passageiro reforçou o pedido. Outro quis também, e mais outro... Em menos de um minuto, o ônibus inteiro clamava por música. Tímido e um pouco assustado, o cobrador pegou a sanfona e, com seus dedos hábeis, deu os primeiros acordes de Asa Branca, o eterno hino-baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Aqueles passageiros, pessoas do bem que traziam no rosto as marcas da luta diária, acompanharam Sebastião da Sanfona em um coro inesquecível. “Quando oiei a terra ardendo, quá fogueira de São João, eu preguntei a Deus do céu: Ai Por que tamanha judiação?” Cada um tirou do pouco que tinha e deu a Sebastião. Um cruzeiro, cinco ou dez cruzeiros. Colocavam as notas e as moedas no bolso da camisa do cobrador. Com a ajuda singela daquele povo, Sebastião da Sanfona conseguiu a quantia para os óculos da menina. Enquanto lágrimas de gratidão escorriam pelo seu rosto, o ônibus avançava para o centro da cidade. Os primeiros arranha-céus já despontavam na visão do motorista Brandão, que embalado pelas notas mágicas da sanfona de oito baixos do companheiro de trabalho, cantarolava baixinho. “Hoje longe, muitas légua, numa triste solidão. Espero a chuva cair de novo, pra mim vortar pro meu sertão”.