Caminhei devagar pelas ruas do antigo Macuco. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Observei casas de tijolo à mostra. Tinta descascada e janelas grandes que já viram muita gente passar. Cheiro de café coado. Admirei quintais de terra batida. Sem grama de condomínio. Sem piso frio. Uma mangueira estica os galhos como quem gesticula para contar história. O mamoeiro, magro e teimoso, de tão alto enxerga o Porto. O chapéu-de-sol, generoso, abriga um bando de pardais. Encostada em um muro, madeira velha empilhada. Caixotes do tempo. Também vi porão entreaberto. Escuro, guardando cheiro de mofo e segredo. Lugar de brinquedo perdido e medo de criança. O varal cheio de roupas esperava o vento e o sol. Cachorro preguiçoso de orelhas caídas cava um buraco na terra fofa e deita ali mesmo. De vez em quando late baixinho quando um carro passa. Abana o rabo quando vê criança que volta da escola com mochila nas costas. O gato explora telhados úmidos. Lá do alto encara com altivez quem tem os pés no chão. No fim da tarde, o canto dos passarinhos cobre o barulho do mundo aqui fora. Ronco de caminhões. Buzina de trem. Apito do navio. Caminhei pelas ruas. E encontrei gente conversando no portão com cadeira na calçada. Gente que me desejou boa tarde sem nunca ter me visto. No alto de uma casa, vi esculpido na fachada o ano de sua construção: 1913. Enquanto os novos prédios crescem e o Porto trabalha, esses quintais antigos insistem em ser quintais. Guardam fragmentos do tempo que ficaram no chão, com terra, madeira e tijolo. Caminhei até a luz do dia se apagar. Levantei os olhos e o céu estava limpo. Muitas estrelas, pequenas, distantes. Sem dedos de concreto apontando para elas. Sem pressa de sumir. As mesmas estrelas que eram vistas desses quintais há cem anos, quando a terra era a mesma e as árvores menores. Enquanto houver quintal com terra, cachorro na sombra, gato no telhado e cheiro de café coado, o bairro não envelhece. Ele apenas fica mais poético. E vivo.