(Imagem ilustrativa/Arisa Chattasa/Unsplash) A antipatia é recíproca. Eu não gosto de elevadores e eles também não nutrem a menor simpatia por mim. No prédio onde eu moro estão sempre distantes do meu andar e adoram me fazer esperar. Às vezes, quando lembram que eu existo, já chegam lotados. A porta se abre e com um sorriso sem graça e resignado só me resta dizer educadamente que vou esperar a próxima leva. Essa minha relação com os elevadores já começou torta há muito tempo e foi arruinada quando eu ainda era criança. No ano de 1980, fiquei internado por uma semana em um hospital por causa de um problema renal. O tratamento durou um ano e sempre que retornava para passar por novas consultas o que me dava mais medo eram os elevadores. Não eram grandes e tinham aquela janelinha vertical por onde dava para enxergar a parede enquanto subiam ou desciam. Lembro que emitiam ruídos metálicos. Eu fechava os olhos com força e só abria quando finalmente chegava ao andar de destino, ouvindo broncas da minha mãe para que eu prestasse atenção no caminho. Mesmo depois de adulto, por muitos anos não entrei sozinho em elevador. Já subi 16 andares de escada em um prédio residencial antigo só para não encarar o que para mim seria o passeio do terror. A fobia chegou a tal nível que se manifesta até quando estou dormindo. Certa noite sonhei que havia entrado em um elevador que não parava nunca. E quanto mais subia, mais aumentava a velocidade. Parecia um foguete desvairado dentro de paredes de concreto rumo a sei lá o quê. Também já sonhei com elevadores que se deslocavam para os lados e que me levavam a lugares estranhos e desconhecidos. Voltando à vida real, acho que fiquei preso em elevador somente umas três vezes e, ao contrário do que poderia imaginar, permaneci calmo. Em uma dessas situações a cabine parou no meio de dois andares e só consegui sair com a ajuda de um zelador, que depois de desligar a chave-geral da eletricidade, me deu um banquinho para que eu subisse e alcançasse o pavimento de cima. Tenho consciência de que elevadores são seguros, passam por manutenções preventivas, estão cada vez mais inteligentes, modernos e garantem acessibilidade a muita gente. Mas, se eu tiver uma oportunidade, vou arrumar uma desculpa bem esfarrapada para ir pela escada. “Estou tentando bater meu recorde pessoal de subir degraus”. Ou talvez esta: “O elevador está com cheiro de comida. Eu prefiro subir a pé para não ficar com fome”. Pode ser que chegue um dia em que minhas pernas cansadas não aguentem mais as escadas e agradeçam por ter um elevador bem moderno e espaçoso por perto. A vida é assim, meus amigos. É a arte de praticar a aceitação de nossos limites até o dia da viagem final para o andar de cima (ou de baixo). E que não seja de elevador!