Tem horas em que eu fico ali, parado no semáforo, vendo o sujeito do carro ao lado. Ele está apressado. Buzina antes da luz verde acender, acelera como se fosse perder o voo, costura como se a vida dependesse daquela ultrapassagem. Aí, dois quarteirões depois, paro do lado dele de novo. A pressa não o levou a lugar nenhum. Só fez chegar mais rápido para o mesmo vermelho que eu. Fomos educados para confundir velocidade com chegada. Aprendemos que quem corre muito, vence. Mas ninguém avisou que a pista é circular. Corremos e voltamos exaustos para o mesmo lugar. Hoje todo mundo tem pressa. A pressa para responder a mensagem. A pressa para ser promovido, para casar, para ser visto, para ser lembrado. Almoçamos em 15 minutos olhando para a tela. Tomamos café em pé. Dizemos “bom dia” sem olhar no olho. Muita gente marca um encontro já pensando na hora de ir embora. A modernidade nos vendeu um relógio que nunca atrasa, mas vivemos adiantando os ponteiros. E no meio dessa correria toda, o que é que a gente está perdendo? Não é o tempo. É o que acontece dentro do tempo. Outro dia vi um menino parado na praça, olhando uma formiga carregar uma folha dez vezes maior que ela. Ele ficou ali uns cinco minutos. Só olhando. Nenhum adulto tem cinco minutos para olhar uma formiga hoje. A gente tem planilha, tem meta, tem boleto, tem reunião. O menino tinha o que a gente perdeu: presença. Drummond já dizia que a vida necessita de pausas. E parar, hoje, virou um ato de rebeldia. Se você parar, vão te olhar torto. Quem vive com pressa não vive mais. Cumpre horário, cumpre tarefa, cumpre protocolo. Mas viver mesmo, com aquele gosto de estar inteiro no que se faz, isso ficou para depois. Só que o depois nunca chega, porque a pressa engole o depois. A pressa promete eficiência e entrega ansiedade. Em algum momento, esquecemos que a vida não é uma estrada para ser vencida. É uma rua para ser caminhada. Quem anda devagar vê a vitrine, cumprimenta o porteiro, repara que a árvore da esquina deu flor. Quem corre só vê o relógio. Talvez a maturidade seja isso: entender que chegar primeiro não é chegar melhor. Não é fácil “desapressar”. O mundo puxa. O celular vibra. O e-mail cobra. Mas eu insisto em tomar o café sentado. Faço questão de deixar o sinal abrir no tempo dele, não no meu. No fim das contas – e isso a gente só entende depois que a pressa machuca –, ninguém se lembra de quem chegou mais rápido. A gente se lembra de quem ficou. E ficar exige a coragem mais moderna de todas: a coragem de ir devagar, de ser aquele menino que encontrou a pequena formiga no meio do jardim.