(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Antonio inventa vidas no trem suburbano das 7h25. Sempre na janela 9, no banco da esquerda, onde quase ninguém senta porque o sacolejo é mais forte. Larga o serviço de porteiro noturno de prédio às 7h e caminha apressado até a estação. Dorme de dia, vive de noite. Carrega na mochila dois cadernos e duas canetas. Enquanto as rodas de aço rolam sobre os trilhos, da janela Antonio escolhe uma pessoa qualquer do lado de fora. Inventa nome, idade e um drama. Se a caneta falhar, a pessoa “morre” nas folhas do caderno. Na segunda-feira, ele inventou a Dona Bibiana. A idosa estava na janela de seu apartamento quando o trem suburbano passou. Antonio escreveu: “Dona Bibiana, 78 anos, gosta de regar as plantas pontualmente às 7h33 porque nesse horário seu único filho nasceu. Mas ele morreu em um acidente de moto em 1997. Dona Bibiana molha suas plantinhas com lágrimas de mãe, por isso elas crescem melancolicamente lindas”. Na terça choveu. Enquanto os pingos escorriam e faziam rabiscos tortos no vidro da janela 9, Antonio inventou o Toninho. Uniforme e mochila nas costas, o menino seguia para a escola. Pegou a caneta e abriu o caderno. “Toninho, 13 anos. Não tem guarda-chuva porque esqueceu em algum lugar. Está triste. O pai saiu de casa. Jurou que se um dia tiver filhos nunca fará isso. Chora de raiva toda noite antes de dormir. Quer começar a trabalhar para ajudar a mãe. Gosta de Matemática”. Na quarta-feira o sol reapareceu tímido. O porteiro da manhã se atrasou e Antonio quase perdeu o trem das 7h25. Conseguiu o seu lugar na janela 9 e sentiu alívio. Olhou para o dia que apenas começava e procurou alguém para inventar. Passou pelo prédio da Dona Bibiana, mas desta vez ela não estava na janela regando as plantas. “Mudou ou morreu”, escreveu com a caneta esferográfica preta. Quando o trem reduziu na curva, viu na calçada um homem de barba, mais ou menos 30 anos, com camisa de firma. O desconhecido olhou direto para o trem, janela 9, e encontrou os olhos de Antonio. Acenou. Antonio fechou o caderno na hora. Suou frio na testa. Nunca alguém havia acenado para ele. Essa atitude do homem de barba quebrava uma das principais regras: ele inventava e as pessoas não sabiam. Era um trato que a janela do trem assinava todo dia. Antonio sentiu vontade de olhar para trás, mas teve medo. “Descobriram o meu segredo”. Guardou o caderno e a caneta na mochila e trocou de lugar no trem. Desceu na estação do bairro. No bar da Dona Célia, não conseguiu tomar todo o café que estava na xícara. Saiu com pressa e foi para o pequeno prédio onde residia. Subiu os três andares pela escada e se jogou na cama. Custou a dormir. Sonhou que alguém batia em sua porta. Era o homem de barba. – Que vida você inventou para mim? Antonio acordou com a boca seca, coração disparado. Pegou o caderno e escreveu com mão trêmula: “Nome: desconhecido. Idade: a mesma que eu tinha quando a vida parou. Desgosto: me ver”. Pela primeira vez Antonio não inventou. Copiou.