(Imagem gerada por IA) Acordou antes de o despertador gritar. Pegou o celular e impulsivamente enviou uma mensagem de “bom dia” à garota que havia conhecido dentro do metrô na noite anterior. Iniciaram uma conversa e decidiram trocar os números de telefone. Ainda sonolento, releu o que havia acabado de escrever. “Só bom dia é muito frio”, pensou. Imediatamente apagou a mensagem e decidiu enviar outra: “Bom dia, dormiu bem?” Olhos estáticos na tela, reflexo da luz azul no rosto e outro arrependimento: “Perguntar se dormiu bem para alguém que eu mal conheço parece muito íntimo. Ela vai achar que sou carente”. Apagou a segunda mensagem. Virou-se na cama como quem se vira para dentro de si mesmo e tentou imaginar o que a moça pensaria ao ver duas mensagens deletadas. Não seria uma boa impressão. “Esse cara não sabe o que fala. Trocou meu nome. Deve ser comprometido”. Aflito, procurou gifs animados para tentar consertar o que começou errado. Sentiu que o tempo jogava contra ele. Queria enviar algo bonitinho antes que ela despertasse e visse apenas o aviso das mensagens excluídas. “Esses desenhos de corações dourados são muito cafonas. E o bom dia piscando no céu azul com sol amarelo e sorridente nascendo atrás da montanha é infantil demais”. Desistiu de enviar uma mensagem animada. Virou-se mais uma vez na cama. Colocou as mãos no rosto e se esforçou para pensar com um pouco mais de calma. Agora vai! “Bom dia, Cecília. Como está? Espero que você tenha um ótimo dia”. Pronto! Conseguiu enviar uma mensagem equilibrada, no tom certo, sem ser invasivo ou parecer bobão. Levantou-se e foi até a cozinha preparar o café. Não demorou e uma voz sussurrou dentro de sua cabeça: “Do jeito que você escreveu, parece que não quer mais ter contato com ela. Desejou um ótimo dia e não deu espaço para a conversa fluir”. Aquela voz tinha razão. Um novo impulso o fez apagar a terceira mensagem. Foi para a sala. Sentou-se no sofá. Procurou na internet “lista de desculpas para justificar mensagens deletadas”. Uma pior que a outra. Eram falsas. Melhor dizer a verdade. “Cecília, desculpe, escrevi logo que acordei e estava sem meus óculos. Quando vi, havia vários erros de digitação. Resolvi apagar para não ficar feio”. Ótimo! Essa mensagem parecia perfeita e simpática. Enviou. Sorriu. Mas em seguida refletiu: “Eu não uso óculos. Toda vez que eu for olhar para o celular perto dela terei de fingir que não enxergo bem”. Mentir nunca é um bom caminho. Apagou a quarta mensagem. Foi tomar banho. Quem sabe a água do chuveiro pudesse refrescar suas ideias? Logo que saiu, ainda enrolado na toalha, pegou o celular e escreveu novamente. “Bom dia, tudo bem?” Reparou, porém, que a foto de Cecília havia desaparecido do aplicativo. E as mensagens não chegavam mais. Foi bloqueado. Ainda ficou ali por uns dez minutos olhando para o telefone, esperando algum sinal. Depois, resignado, vestiu-se para o trabalho e saiu, torcendo para que o acaso lhe desse uma outra chance de ser feliz.