[[legacy_image_357011]] O pai não tinha carro. Serginho ficava na expectativa por uma visita do Tio Zoroastro e da Tia Laudiceia. Eles sabiam que o garoto tinha fixação por automóveis. Tio Zoroastro era dono de um Volkswagen 1300, um fusquinha amarelo gema de ovo fabricação 1976. No catálogo oficial de cores, o nome era pomposo: amarelo imperial. As visitas de Tio Zoroastro e Tia Laudiceia normalmente aconteciam nas tardes de sábado. Serginho ouvia de longe o ronco do motor. Corria feito louco até o portão de casa. O velho tio estacionava o carro e lá estava o menino, observando tudo. As rodas, os para-lamas, o brilho da pintura novinha. Era sempre a mesma coisa, quase um ritual. Tio Zoroastro saía do carro, não trancava a porta e guardava a chave no bolso da calça. Ia para o outro lado e ajudava Tia Laudiceia. Ela tinha problema nos joelhos. Andava com dificuldade. Precisava de apoio. “Pode brincar lá dentro”. Tio Zoroastro, habitualmente com o rosto vermelho e suado, mas sempre sorrindo, mal terminava de falar e Serginho já estava se ajeitando no banco do motorista, segurando o volante e balançando as pernas curtas demais para alcançar os pedais. Na imaginação do garoto, o fusquinha rodava pra valer. Passava na frente da escola, desfilava na avenida da praia, pegava estradas intermináveis e virava táxi de passageiros desconhecidos. De vez em quando, Tio Zoroastro levava o sobrinho para dar uma volta no quarteirão. Dirigia devagar. Não passava da segunda marcha. Era a glória. Um par de dias antes do Natal, Tia Laudiceia morreu. Tio Zoroastro perdeu o gosto e a vontade de dirigir. Decidiu vender o gema de ovo. Serginho estava tomando café com leite na cozinha quando ouviu a mãe comentar com o pai. “Meu irmão não quer mais saber do fusca. Vai colocar à venda. Já tem um conhecido dele interessado. Diz que agora só vai andar de táxi”. Foi um baque. Serginho não conseguiu dar o último gole e foi para o quintal. Escondido de todos, chorou. Na cabeça e no coração do menino a tristeza não era motivada apenas por não ter mais um carro de verdade para brincar. Ele também pensava no tio. Sentia pena. E sabia como o fusquinha era bem-cuidado. Precisava agir. Pegou a bicicleta e foi até a casa de Tio Zoroastro. Pedalou quase três quilômetros com a sensação de que estava cumprindo a missão mais importante de sua vida juvenil. “Tio Zoroastro, não vende o fusca, não”. “Quem te mandou aqui, Serginho”? “Não vende o fusca”. “Por quê”? “A Tia Laudiceia gostava de passear nele e vai ficar brava se o senhor vender”. Tio Zoroastro cerrou os olhos e sentiu que Serginho estava certo. Manter o carro seria uma bela homenagem à esposa falecida. Pegou o menino pela mão e foi até o fusca. Vidros abertos, motor funcionando redondinho. Um passeio pela praia com o vento batendo no rosto é sempre bom. Naquela hora, não dava mais para saber quem era o adulto e quem era a criança.