“Senhor Alceu, a empresa precisou adotar uma política de contenção de gastos. Infelizmente teremos que desligá-lo do nosso time de colaboradores. Agradecemos a sua dedicação. O senhor receberá todos os seus direitos. Fique tranquilo. Entraremos em contato para informar a data e o horário da sua rescisão”. Foi assim que, em menos de 30 segundos, foram encerrados os 15 anos de Alceu na loja de materiais para construção. Algo totalmente inesperado (por ele). Tudo acabou de um jeito burocrático, solitário, frio. A sua vida se resumia a alguns papéis, carimbos, assinaturas e incerteza. Enquanto caminhava vagarosamente até o vestiário da firma, percebeu os olhares de compaixão dos colegas. Poucos, porém, se animaram em ao menos apertar a sua mão ou dar o protocolar tapinha nas costas. Hoje é o Alceu. E amanhã? Sentiu vergonha. Por que logo ele? Era bom no que fazia. Organizado, implantara um sistema eficaz de controle do estoque de mercadorias. Funcionário padrão. Não se atrasava. Não faltava. Não reclamava. Trocou de roupa. Foi para o ponto de ônibus. Circular 44 costuma demorar. “Agora eu sou um desempregado. Não preciso ter pressa”. Era como se o tempo estivesse congelado. Ali, no meio de tudo, Alceu sentia-se um nada. Dentro de sua bolha, tentava entender o motivo da demissão após tantos anos de dedicação. Por que foi escolhido? “Não tenho mulher e filhos. Deve ser por isso. Mas a minha mãe depende de mim. Foi injusto”. Pensamentos a mil. Plano de saúde. Farmácia. Mercado. Luz. Água. “Não vou contar nada lá em casa. E se a mãe ficar nervosa e sofrer um ataque do coração?” A mesma cidade que acolhe pode ser cruel quando se perde o chão. “Moço, compra uma bala pra me ajudar?” “Não tenho dinheiro”. “Compra-se ouro”. “Avaliação odontológica gratuita. Comece hoje mesmo o seu tratamento!” O funcionário padrão estava perdido. O que seria dele sem o cartão de ponto de cada dia, sem o alarme matinal que anunciava o início de mais um dia útil? Ali mesmo, no ponto de ônibus, tentava calcular quanto receberia. Férias. Fundo de Garantia. Acréscimo de 40%. “Dá para se virar por uns seis meses. Mas o dinheiro acaba. Preciso procurar emprego. Não tenho computador. Não tenho currículo. Fracassei na vida!” Suor que brota na testa. Palpitação. Mãos geladas. Fraqueza nas pernas. Circular 44 dobrando a esquina. Visão turva. Escuridão. Silêncio. “Ajudem! O homem está passando mal!” Morte súbita. Flores e homenagens ao funcionário exemplar.