(FreePik) Cismei que estava com carência de vitamina D e sentei em um banco perto do jardim. Enquanto o sol das 9 horas aquecia o meu rosto, inclinei o corpo em direção ao chão para observar melhor duas fileiras de formigas que se deslocavam em direções opostas. Escolhi aleatoriamente uma delas e passei a acompanhá-la com os olhos, me esforçando para não perdê-la de vista. A formiga para a qual eu olhava carregava um pequeno pedaço de folha e cumprimentava muitas colegas que encontrava pelo caminho. Algo rápido, do tipo: “Oi, amiga, passa mais tarde lá em casa para a gente colocar a conversa em dia”. Ela seguiu seu rumo e se misturou a outras, fazendo com que eu a perdesse de vista no meio do formigueiro. Comecei, então, a prestar ainda mais atenção naquele mundo das formigas. São disciplinadas. Mesmo apressadas, não furam a fila ou passam no sinal vermelho. Nem esbarram umas nas outras por causa do celular. Tudo organizado, dentro de um ruído que nossos ouvidos são incapazes de captar. Aliás, não vi nenhuma formiga tentar roubar a outra, fazer corpo-mole ou pedir sombra e água fresca. Imagino que tenham um senso de responsabilidade e cooperação mútua dignos de inveja. Nascer formiga não deve ser fácil. É preciso, antes de tudo, aceitar que todas as coisas são gigantes. Chegar ao topo de uma árvore pode ser comparado a uma viagem à lua. Pequenas plantas do jardim atingem alturas incríveis na visão de uma formiga. Insetos voadores devem ser admirados como grandes aviões comerciais ou jatos supersônicos. Montinhos de terra parecem o Pico do Everest. E nós, humanos? Talvez sejamos vistos como dinossauros de grandes patas que fazem o chão tremer e se movem lentamente — mais atrapalham do que ajudam. Acredito que somos desprezados pelas formigas. Elas não se importam. Você já viu alguma formiguinha pedir carinho ou demonstrar vontade de interagir em uma manhã de outono? Estão sempre muito ocupadas e centradas. Não perdem tempo com bobagens. Se você não faz parte do clube delas, esqueça. Nunca será convidado para um banquete dentro da colônia. Se marcar bobeira, ainda leva uma picada bem ardida. Para quem ainda duvida de que o mundo pertence a essas pequenas criaturas, aqui vai um dado impressionante: um estudo publicado em uma conceituada revista científica estima que existam no planeta cerca de 20 quatrilhões de formigas — uma proporção de 2,5 milhões de indivíduos para cada ser humano vivo. Quando o sol começou a esquentar demais, decidi deixar o banco do jardim. As formigas continuaram ali, indiferentes, ágeis, indo e vindo, transportando pequenas folhas como se fossem sacolas em uma semana de Natal na Rua 25 de Março. Depois viriam a tarde, a noite, a madrugada, o sereno, a chuva e o sol. E a vida seguiria em frente, dentro da mais complexa simplicidade e da grandeza que só as pequenas coisas — e as formigas — são capazes de ensinar.