Um dia o homem cansou. Não foi um cansaço barulhento. Não teve discussão, nem diagnóstico. Foi um cansaço de quem mora sozinho há tempo demais e percebeu que estava fazendo muito barulho para uma casa silenciosa. Ele morava só. As pessoas foram saindo aos poucos, como maré baixa - um amor, um amigo, o cachorro. Até o beija-flor que todo o dia aparecia para bebericar a água no bebedouro havia desaparecido. A casa, então, ficou estranha. Objetos perderam sentido. Tudo parecia exagerado. Ele começou a falar mais alto com a televisão. Começou a deixar a louça de ontem na pia para ter o que fazer no dia seguinte. Até que em uma terça-feira qualquer ele cansou de tentar preencher a casa. Arrastou a poltrona para o meio da sala, bem em frente à televisão, como quem monta um altar. Desligou o celular, fechou as cortinas e deu play. Na tela, peixes. Eram aqueles vídeos do fundo do mar, 10 horas contínuas, sem voz humana. Só água. Um azul tão profundo que a sala, de repente, pareceu rasa. Os peixes passavam devagar, sem pressa de chegar a lugar nenhum. Sem precisar responder mensagens. Ele passou a viver por aquele aquário falso. Acordava e ligava o mar. Fazia o café com o som abafado das bolhas ao fundo. O pão na chapa estalava junto com o coral. Quando a solidão apertava - e ela apertava nas primeiras horas da noite, quando o prédio inteiro acendia a luz da janta - ele aumentava o volume e deixava o azul tomar as paredes. Ele não queria mais o mar de verdade. O mar de verdade tem vento, tem gente gritando, tem que voltar. Aquele mar da televisão ficava. Era fiel. Era o único que não ia embora se ele não fosse interessante o suficiente. Os peixes, agora, eram os seus únicos amigos. Tinha um em especial, pequeno, amarelo, que sempre voltava para o mesmo canto do coral. O homem esperava por ele e até lhe deu um nome: Solano. Quando o peixe amarelo aparecia, ele dizia em voz baixa: “aí está você, Solano”. Era a única conversa do dia, e bastava. Às três da tarde o sol atravessava a cortina e a sala inteira ficava submersa. Poeira no ar parecia plâncton. Ele tirava os sapatos, afundava os pés descalços no tapete e pensava que, finalmente, tinha aprendido a morar no mar. Não era mais um homem sozinho em um apartamento. Era um homem e seu oceano particular. Quando a campainha tocava, ele não atendia. Quem o procurasse teria que aprender a respirar debaixo d'água. Ele ficou ali por semanas. Meses, talvez. Até que numa manhã o peixe amarelo não apareceu. Ele esperou. Deu replay. Nada. O coral estava vazio. Foi então que ele levantou. Abriu a cortina. A luz da rua, que antes parecia invasiva, agora doía de tão real. Desligou a televisão. O silêncio que ficou não era mais azul, era só silêncio. E pela primeira vez em muito tempo ele sentiu falta do barulho do mundo. Calçou os sapatos. Pegou a chave. Não sabia se ia longe, mas sabia que precisava, nem que fosse por cinco minutos, voltar à superfície para respirar.